Agora chegamos a última crônica desta série sobre os paraísos perdidos do Himalaia, visitando os reinos do Tibet e Nepal.
Os visitantes do Tibet normalmente ficam encantados com
a beleza de sua
natureza e a grandiosidade
de seus palácios
e templos, principalmente
com o gigantesco
Potala, centro político
e espiritual, no alto
de uma colina no centro
da capital Lhasa (V. figura 1), de onde reinava o Dalai Lama,
em uma verdadeira “Cidade
Proibida” para
o povo.
Mas, como
observou Mario Vargas Llosa falando sobre
viagens e seus
lugares preferidos no mundo, não se
pode entender uma sociedade
e um país
se não se interessar
minimamente por sua
problemática política. Assim
procurei ver o que
normalmente não
é visto, com
os olhos insuspeitos
de uma pessoa que, para lembrar a idade da
esposa, tem que associar
a sua data
de nascimento ao ano da Revolução Chinesa.
Figura 1 – O gigantesco
Potala no centro de Lhasa. Foto T.Abritta, 2007.
O
Tibet, antes da invasão
chinesa na década de 50, era um reino teocrático
onde o Dalai Lama
reinava absoluto, com
o povo vivendo em
um sistema
medieval, pagando tributos
e enviando alimentos para
os monastérios, verdadeiras cidades, como o
Monastério de Ganden com dois mil monges e Drepung, o maior
de todos, com
dez mil monges.
Os
chineses chamam a invasão do Tibet de libertação,
mas na realidade
substituíram o poder medieval
do Dalai Lama por
um sistema
de apartheid, onde
os tibetanos são sistematicamente
eliminados, expulsos de seu próprio país e têm a sua
cultura destruída, para
serem substituídos por uma massa chinesa passiva
e bem comportada.
Hoje, esta política
já reduziu drasticamente a população tibetana – já é menos
da metade da chinesa – neste país chamado eufemisticamente de “Território
Autônomo do Tibet”. Neste massacre físico e cultural, os tibetanos são
considerados seres inferiores,
diante da suposta
superioridade racial
chinesa. Nas escolas
só se ensina
o mandarim. Todas as oportunidades de emprego,
como cargos públicos
e até um
simples alvará
para a abertura
de um comércio, contemplam
prioritariamente os cidadãos
chineses. Este
governo de ocupação
legisla até no mundo
sobrenatural, com
a “Regulamentação Nacional Chinesa sobre Assuntos Religiosos”, que
determina qual é o Lama
que vai encarnar
o supremo Dalai Lama
após sua morte. O interessante
é que o governo
de Pequim escolhe também os bispos católicos
e o Vaticano simplesmente
se cala, em
um pragmatismo
político que
rasga princípios éticos
que deveriam ser
inegociáveis.
Destruição cultural e monges
drogados
Na
chegada ao aeroporto
de Lhasa, todo o esplendor
da paisagem se dissipa com a estrutura
militarista de recepção. No caminho
para a capital
levamos aproximadamente uma hora,
percorrendo uma estrada ladeada de instalações militares,
que, ao longo do seu percurso, vai destruindo a paisagem,
cortando montanhas e aterrando lagos, dando uma amostra
da “modernização chinesa”, onde impera o
mau gosto,
o desrespeito ambiental e o desprezo a qualquer valor cultural, em
um culto
absoluto ao lucro
fácil.
Um pouco antes da chegada,
paramos para ver uma enorme estátua
de Buda talhada
na encosta de um
rochedo no séc. XI
(V. figura 2). A visão
do monumento foi chocante. Assim como
as duas estátuas gigantes
de Buda no Afeganistão – Os Budas de Bamiyan – foram destruídas, por aqui os
chineses cobriram todos os resquícios da pintura
original com
uma “restauração do tipo
alegoria de escola
de samba”, num grande
atentado cultural, ao gosto de uma mentalidade
modernista simplória, onde tudo deve estar tinindo de novo para agradar ao turismo de massa.
Figura 2 – Estátua
de Buda talhada
em um
rochedo no séc. XI.
Foto T.Abritta, 2007.
Mas outras grandes
surpresas ainda
nos aguardavam, como a entrada em
Lhasa, transformada em uma mistura de cidade
americana brega
com o bairro
oriental de São
Francisco, com fachadas douradas, muito plástico
e mau gosto
por todos
os lados.
Dentro desse festival
de surpresas, ficamos também conhecendo os monges-funcionários-públicos que administram o Norbulingka,
antigo palácio
de verão dos Dalai Lamas – vestiam-se de
monges budistas
e para passar o tempo eram muito
criativos. Misturavam haxixe
com incenso,
conseguindo não só
espantar os visitantes com
uma fedentina insuportável,
como chegar
aos seus “nirvanas”
cantarolando com olhos vermelhos e ares
imbecilizados. Um
dos supostos monges
estava tão drogado
que resolveu usar
um aspirador
de pó para encerrar o expediente
mais cedo
com a barulhada que
fazia.
A Igreja
Universal chinesa
A nossa
“peregrinação” continuou visitando o Jokhang, um
dos templos mais
sagrados do budismo
tibetano, restaurado às pressas naquele estilo “alegoria
de escola de samba”
e transformado em uma espécie de Disneylândia chinesa. Na entrada
do templo havia um
estacionamento para
os luxuosos automóveis
das autoridades chinesas, e as massas de turistas tinham que
se esgueirar entre
os carros, tal bando
de zumbis seguindo guias com bandeirinhas
coloridas que vão
gritando informações e fazendo o circuito da visita,
parando em alguns
pontos para fotografias, como
se fosse a esteira rolante de uma fábrica. As paredes do templo
são cobertas
de dinheiro, e por todos
os lados observamos cofres para as doações, que são
recolhidas constantemente e levadas para uma pequena sala onde o dinheiro é contado e ensacado (V. figura 3).
A fé popular gerando
lucros para o capitalismo chinês.
Figura 3 – Montanhas
e sacos de dinheiro
“recolhidos” como bilhete
para o Nirvana
chinês. Foto T.Abritta, 2007.
No
final do dia
as bilheterias deste circo são
fechadas e assistimos a uma cena de cortar o coração, com
a chegada de centenas
de peregrinos tibetanos com roupas típicas, mostrando a enorme
diversidade cultural que Pequim quer
apagar da História. Nos arredores do templo
fica o quarteirão da rua Barkhor,
ainda não
destruído, onde podemos viver
um pouco
do verdadeiro Tibet, tomar
uma bebida local
– horroroso chá misturado com manteiga de
yak – e refletir
que a luta
do povo tibetano deve ser
inserida em um
processo mais
amplo de autodeterminação
dos povos, como os curdos, palestinos, armênios e todos
aqueles massacrados neste mundo, desde os
beduínos em
Israel aos afegãos estraçalhados pelos bombardeios da OTAN.
A visão de um
grupo de Khampas, com seus cabelos envoltos em lã vermelha (V.
figura 4), reforça esta idéia. Por que não reivindicar a criação do país
Kham e de outros
que formariam uma federação
tibetana? Afinal
de contas, conforme
o Zen Budismo,
O caminho
do meio está onde
não há nem
meio nem
dois lados, aqui formados pela
opressão de Pequim e pelo
antigo regime
medieval dos Dalai Lama.

Figura 4 – Um
grupo de Khampas, um povo altivo e guerreiro
que habita a região
Kham.
Foto T.Abritta, 2007.
O Reino
do Nepal
Em Kathmandu,
no Nepal, terminei esta longa viagem nostálgica, jantando no restaurante
Kilroy`s, tendo ao meu lado uma mesa posta com todos os requintes reais
(V. figura 5), aguardando, desde 2001, a
volta para jantar em seu lugar
preferido, do Rei Birendra e da Rainha Aishwarya, assassinados por seu filho, o Príncipe
Dipendra, que se suicidou como em uma tragédia grega,
marcando o encontro da tradição oriental com o ocidente,
representado pela fria
face do capitalismo,
que não
consegue melhorar a vida desses povos,
trazendo apenas desgraças
e pobreza para
a maioria e riquezas
para poucos.
Figura 5 – Restaurante Kilroy`s, Kathmandu. Foto
T.Abritta, 2007.