Sempre que me identifico é este
horror. Tira qualquer prazer em
viajar. Nos aeroportos é sempre
assim. Um país de analfabetos. Era para ser Nilo Batista, acabei registrado
Nihil, um nada. Cartório de
incompetências. Estou condenado a viver
neste mundo detestável, carregando o ridículo.
Enquanto aguardo o embarque, abro o
jornal e fico mais deprimido ainda com o artigo de um geógrafo ambientalista:
“Em minhas andanças pelo Brasil
presenciei toda sorte
de desvios ambientais praticados pelas
populações: caça e pesca ilegais , incêndios
criminosos de florestas
e pastagens; uso indevido
de defensivos agrícolas ,
destruição de encostas ,
matas ciliares e poluição
das águas. Mas
o que mais
me chocou foi a matança
das inocentes e poéticas
arribaçãs no Nordeste e de preguiças e outros pequenos
animais durante
a pororoca na Amazônia.
As arribaçãs (Zenaida auriculata), também
conhecidas como avoante, pomba do sertão
ou de bando, distribuem-se geograficamente
das Antilhas a Terra do Fogo ,
conforme a época
do ano, dentro do seu
ciclo migratório. Em certos meses formam bandos
compactos no Nordeste
brasileiro , tendo representado, no passado, uma importante fonte de alimentação dos sertanejos
nas secas mais
severas. Infelizmente
hoje é considerada uma iguaria preparada
com arroz
e feijão , sendo muito
apreciada pelos caminhoneiros
que por
lá trafegam. Para responder a esta demanda
perversa, as avoantes são mortas em massa
usando-se ração misturada
com agrotóxicos
em alta
concentração, o que resulta em campos cobertos de aves
mortas. Podemos dizer
que estes
criminosos chegaram ao máximo em seu poder de morte . Matam a Natureza e envenenam o homem de imediato !
Atiro o jornal no lixo. No fundo, tento não ver esta realidade. Mundo deplorável que me aprisiona. Eu, Nihil: o nada.
Olho a jovem ao lado, entretida com sua
maquininha luminosa que solta sons e estalos estranhos. Pelos vidros do aeroporto, vejo lindo céu
azul cortado por belas nuvens alongadas, perfeitamente planas em suas
bases.
Gostaria de explicar à jovem ao lado que
isto acontece, porque a pressão atmosférica e a temperatura do ar dependem da
altitude. Abaixo das bases das nuvens, o
vapor de água condensa-se. As condições
físicas não permitem a formação de nuvens até aquela altura. Mas não falarei. Ela iria responder: “o quê que eu tenho com isto?”
Entro e sento-me ao junto à janela do
avião. Na poltrona ao lado, a tal da
jovem com a maquininha estalante.
O sol estava alto e, como hipnotizado,
ia seguindo a sombra do avião nas nuvens.
Uma auréola colorida emoldurava a imagem (ver Foto 1).
Figura 1 – Sombra nas nuvens. Foto T. Abritta.
Lembrei-me que este fenômeno foi
registrado pela primeira vez por Benvenuto Cellini, no século dezesseis, ao
observar do alto de uma montanha sua sombra rodeada por colorida auréola. Sentiu-se iluminado, atribuindo à
luminosidade o reflexo de sua genialidade artística.
Poderia explicar à jovem ao lado que a
auréola era devido à refração da luz nas gotículas... Mas não explicarei. Ela falaria: “o quê que eu tenho com isto?”
Passei a me divertir fotografando as
hélices do avião que pareciam paradas (ver Figura 2). Poderia explicar para a jovem ao lado que
mesmo girando em alta rotação, existe uma sintonia com a velocidade de
varredura da máquina fotográfica digital que atua como um estroboscópio. Mas ela simplesmente falaria: “o quê que eu tenho com isto?”
Figura 2 – Hélices de um avião. Foto T.Abritta.
Estranho. Não consigo mais “parar” as hélices. A velocidade de rotação está variando. Diminuindo.
O motor do avião, parado. Estamos
caindo. Gostaria de explicar à jovem ao
lado...
Agora, o nada me impedirá – auréola de anjos da morte.
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