Botswana, Foto T.Abritta, 2008

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Anel Espectral


O verde do plano vertical em harmonia com o azul horizontal
tal montanhas que se levantam emolduradas pelos mares e céus.

A quebra na continuidade espectral
rompe a ordem da cor fundamental.

E na sinuosidade em violão
o calor e cheiro de uma mulher.

O vermelho intruso colore
o tom das ancas desta paixão.

E no dourado de seu luminescer
a quentura de um roçar.

O que pensamos nem sempre é o que vemos
e a presença de sua imagem fica nos vazios da imaginação.

O cruzar de um belo par de pernas seria o epílogo?
Ou os encantos de um sério olhar?

E no final, apenas delicados passos que não ecoam
na macia pedra sabão.


Mesclando Verde com Vermelho, Humberto Carneiro, 2004.
Óleo sobre Tela – 150 cm x 110 cm.
Foto T.Abritta, 2005.



sábado, 23 de janeiro de 2016

O Azul do Firmamento


O Azul do Firmamento.  Corumbau, Bahia. Foto T.Abritta, 2010.


          Paisagem esplendorosa.  O mar, montanhas, o verde flamejante.  Areias infinitas.  Capturar fotograficamente o cenário parecia fácil.  Mas como criar um diferencial de modo que a paisagem tivesse uma singularidade – ponto focal de interesse?
          Pensei numa composição colocando em primeiro plano uns garotos cavando as areias para pegar tatuís.
          Isto seria interessante – o pequeno crustáceo desapareceu da maioria de nossas praias.  Registraria a “sobrevivência” ambiental destas areias.

          Não sei se foi real, sonho, imaginação.  Ou talvez alucinação.
          Efeitos do intenso sol de verão.

          Parecia uma musa a mulher que caminhava toda charmosa na minha direção.  Vestia uma bata branca, segurava a aba do chapéu de palha com a mão direita, de modo a cobrir o rosto, apenas visível o vermelho dos lábios.  O sinuoso movimento do caminhar se refletia em sua sombra, em diagonal, formando um “V” tal o bater de asas de enigmático cisne, metade branco, metade preto.

          Não sei se foi real, sonho, imaginação.  Ou talvez alucinação.
          Efeitos do intenso sol de verão.

          O meu ponto focal para a foto!

          Abri a lente de modo a focar na minha modelo, sem perder a nitidez nos outros elementos da imagem.  Cliquei uma série no modo de disparo contínuo, até ela passar por mim, silenciosa, macia, como algo que flutua.
          Virei-me discretamente, acompanhando a outra face daquele caminhar, a bata esvoaçando ao vento, curvas insinuando, sinuosamente, sensualmente, o corpo imaginário.
          Foi sumindo, sumindo, rasgando o azul do firmamento, deixando um perfume de carne nua...


          Escolhi a foto em que ela estava no meio de um passo, o pé esquerdo no ar, sua sombra projetada na areia.  O braço esquerdo em gracioso movimento, como se fosse voar e o par de belas pernas a movimentar.

          Ah, a técnica: alinhei o horizonte de modo a equilibrar a imagem e dei uns cortes nas laterais, sumindo com elementos distracting – incrível, ate hoje não encontrei em Português uma palavra que tão bem traduza esta ideia.  Particularidades das línguas.
          E assim uma bela foto.  A modelo em primeiro plano, emoldurada pela paisagem e pelos meninos pegando tatuís.
          A beleza humana em plena natureza intocada.  Uma imagem conceitual.


          Mas nada disto aconteceu.  Eu não estava lá, não tirei foto nenhuma, nem sei as razões e motivações de quem capturou a imagem!
          Fotografia é como um poema. Depois de escrito pertence ao leitor-espectador que cria mil e uma interpretações. Assim, uma imagem diz o que vemos – na imaginação, ou no frio recorte formado por cores e formas.
          Tal um poema, também reflete a poesia de imagens imateriais, seus não ditos a serem decodificados pelo Observador.
          Em Cores...

          Ou... no delicado Sépia da nostalgia!

Vi você no Facebook



Suas palavras reluziam
os poemas conhecia
o cerne me seduzia.

Se a alma fosse imortal
seria seu amante ancestral.

Em sonhos de imaginação
espiei pelo buraco de sua fechadura
virtual.

Admirei-lhe as pernas
alisei seus longos
longos negros cabelos.

Mas não quero.
Não quero mais ser
um amigo virtual.

Não quero apenas
seu lado intelectual.
Quero o plural.

Não quero as cores de um avatar.
Quero o brilho ou as pausas
de seu olhar.
Sentir o quente doce arfar.

Quero ser o lobo mau
sentir o corporal
amoral sensual.

Não quero o verso que se quebrou.
Quero o anel que não me deste.

Não quero o pecado venial.
Quero o pecado capital.

                    Não fuja da raia.
                    Não quero rackear sua página.
                    Quero é invadir a sua praia!


Escultura em cimento, Eleonora Soledade – Visconde de Mauá, RJ.  
Acervo Teócrito Abritta.

Publicado em Antologia Verso Testemunho Prosa , Oficina do Livro - 2015.



sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Sinto que alguma coisa



...se desmancha em mim
não é o pensamento
nem a alma
menos ainda vontade de lutar

músculos se desfazem
ossos despencam
mas a cabeça cortada
insiste em pensar

parte de mim luta contra o todo
tal lascas do inconsciente
invadindo a mente

garganta que falha
diafragma que para
pernas que não sustentam

voz que não sai
pulmão que não respira
corpo que não anda.

Curto circuito imunológico
metamorfose animal.

Posso vagar pela escuridão
apenas o olfato a me guiar

uivar como lobo
saudar o luar

sentir o mato fresco
o perfume das damas-da-noite.

Polimiosite autoimune
pneumotórax fatal.

Novas habilidades
retorno à Natureza.

(animal)

Publicado em Poesia Viva 9, 2015.


quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Notícia de Jornal: oitavo capítulo de Jequitinhonha.

Aqui temos o último capítulo já escrito de Jequitinhonha. Aguardem os próximos!


Pomenade. Av. Rio Branco, Rio de Janeiro, anos 50.

          Depois que vim morar em São Paulo descobri muitas vantagens.  No Arraial, jamais poderia ficar sentado em um bar, lendo jornal e tomando café.  Bastava entrar na vendinha e logo vinha alguém prosear. 
          Mas aqui, quando chega aquele General, tudo muda.  Assim que aparece um incauto, começa a contar suas mentirosas histórias de guerra e heroísmo. 
          Todos sabem que suas inexistentes batalhas ocorreram no cenário do cais do porto no Rio, embarcando jovens, às vezes sob mira de pistolas, para morrer nas distantes terras italianas durante a Segunda Guerra Mundial. 
          E lá prosseguia o bestalhão contando vantagens:

          É tudo uma questão de relação entre a flecha e o alcance.  No canhão, por exemplo, temos a menor flecha e o maior alcance.  Com o morteiro é ao contrário, já que atingimos o inimigo logo na frente da tropa.  Com o obus, atiramos por cima de nossas linhas.  A artilharia está atrás e o inimigo na frente.  O artilheiro moderno tem que conhecer muita trigonometria...

          Mas hoje foi diferente.  Entrou um rapaz meio estabanado, esbarrou na mesa do herói de araque, derramou sua cerveja e falou:

Pô, General, isto hoje não serve pra nada.  Agora é tudo míssil.  Basta apertar um botão e explode tudo.

          Não pude conter uma sonora e vingativa gargalhada, não resistindo também perguntar sobre a Interbrás e aquela história de dez por cento (1).

          Como são as coisas.  O incidente trouxe à tona da memória aquele dia em que comentávamos as notícias de jornal sobre a guerra e os depoimentos de nossos heróis.  Seu Anízio ia lendo, e cada feito comemorado com generosos goles de cachaça:

          A artilharia antiaérea, normalmente, fica em lugares mais altos como torres de igrejas e castelos.  Assim o jeito era voar bem baixo, aparando grama, como chamávamos. 
Nos ataques, quando a gente via o clarão, já identificávamos o tipo de boca de fogo, contando os segundos para o projétil chegar.  Um, dois, três... e aí cada avião dava uma guinada para o lado.  Depois mergulhávamos despejando as bombas e cada piloto recuperava para a esquerda ou direita.  Dava um nó na garganta quando uma aeronave não retornava...

          Antes de Seu Anízio ler o próximo depoimento, todos entornavam mais uma talagada de cachaça em homenagem ao piloto Moreira Lima (2) por sua luta contra os fascistas.
          E as notícias continuavam, agora com as operações terrestres:

          Minha patrulha foi toda morta e eu seguia, com fome e sem munição, tentando regressar para nossas linhas.  Do nada surgiu aquele abestalhado, tentando me matar com um sabre.  Tentei falar, mas não adiantou.  Briga de faca com paraibano?  Com muito dó, espetei o alemão na barriga, sentindo o sangue quente correndo pela mão.  Cortei uma de suas orelhas, salguei e guardei nesta caixa de fósforos.  Não foi por maldade não.  Foi pra lembrar que guerra é isto.  Onde já se viu matar um rapaz que eu nem conhecia?

          Mas a notícia mais importante estava num cantinho do jornal:

“Após dois meses de buscas, já considerado desaparecido em combate, foi localizado em um hospital de campanha americano o pracinha José Lourenço.  O brasileiro foi condecorado por bravura ao destruir o tanque inimigo que atacava seu pelotão.  Na luta teve o crânio praticamente esmagado.  Parte do osso parietal foi substituída por uma placa de platina...”

          Foi um corre-corre preparando a festa de recepção para nosso herói.  Afinal, depois de ter o pai, o irmão mais velho e um tio assassinados, isto provava que o destino pode ser mudado pela força da vida. 
          Enquanto isto, pensava em Pedro Severino, na sua vida de brigas e confusões.  Teve o topo da cabeça esfacelado por foiçadas.  Pacientemente lavei os ferimentos com soro fisiológico, tirei pedaços de ossos, pele e cabelos com uma pinça.  Se tivesse, colocaria uma placa de platina.  Mas apenas suturei os fiapos do couro cabeludo e o rapaz está vivo, sempre usando um chapéu protetor. 
Duas cabeças, dois destinos: um heroico, outro inútil. 

          A estação lotada.  Escolares perfilados, banda de música, o coral infantil, autoridades, populares, todos ansiosos. 
          Uma dor cortou nossos corações.  O apito do trem soava rouco tal lamento.  Nosso herói não desembarcou. 
          Mas as notícias chegaram.  Não pelos jornais.  Vieram pelo martelar do telégrafo:

ENCONTRADO COM O CRÂNIO ESFACELADO JUNTO A UMA PILHA DE DORMENTES NOS FUNDOS DA ESTAÇÃO DE TREM DE FERRO DESTA CAPITAL O CORPO DO PRACINHA JOSÉ LOURENÇO PT
A POLÍCIA CONCLUIU TER SIDO ASSASSSINADO POR MOTIVO TORPE PARA RETIRADA DE UMA PLACA DE PLATINA QUE PROTEGIA SUA ÁREA CEREBRAL PT

          Um silêncio profundo e triste abateu-se sobre o Arraial. 
No canto da estação, o olhar apalermado de Pedro Severino.

Notas:
1. Em 1976 foi criada a estatal Petrobrás Comércio Internacional (Interbrás), a  pretexto de incentivar exportações.  Na verdade era um cabide de empregos para amigos do poder, que lucravam com extorsões para liberação de guias de exportação. 

2. Referência ao Major-Brigadeiro Rui Moreira Lima, herói da Segunda Guerra Mundial.  Este militar foi posteriormente preso pelos golpistas de 1964 por defender mais uma vez a Democracia.

Aparições Recorrentes: sétimo capítulo de Jequitinhonha.


Se na semana passada foram as assombrações rurais, hoje foi dia das assombrações urbanas.  E que dia!  Não envolveu apenas a pequena família de Seu Gonzaguinha.  Centenas de pessoas correndo por ruas e becos, sempre perseguidas pelo morto-vivo.  Um verdadeiro deus-nos-acuda.  Ainda escreverei um tratado sobre o sobrenatural. 
Muitos tentam desacreditar os fatos, afirmando serem frutos do medo, ignorância, ou mesmo turvação da mente pelo álcool. 
Mas nestes becos e ladeiras escuras, sempre escutamos histórias de arrepiar os cabelos.  Afinal a antiguidade sempre guarda um passado de morte, sofrimento e injustiças, que o tempo não consegue apagar. 
Em Minas é comum encontrarmos majestosas igrejas em meio a pequenos povoados.  Uns dizem que o fausto e a riqueza dos templos seriam para apequenar o homem diante do poder divino.  Para outros, estas igrejas protegem a população, afugentando os espíritos malignos das montanhas.  E não vamos dizer que são apenas histórias de gente boba.  No Rio de Janeiro, antiga cidade colonial, imperial e capital nacional, ainda podemos ver um velho oratório do século dezoito nos fundos da Igreja do Carmo.  Estes oratórios ficavam permanentemente iluminados, não só mostrando a devoção dos fiéis, como espantando seres diabólicos que vagavam pelas noites das ruas escuras.
O jeito é aprendermos a conviver com as crenças e histórias que fazem parte de nossa cultura. 
Por exemplo, aqui próximo tem um lugarejo que nunca conseguiu progredir.  O povo sempre pobre e amarelado, crianças barrigudas, cheias de vermes.  A explicação vem de uma praga rogada justamente por aquele que deveria cuidar de vidas e almas.  Contam os idosos que Seu Neco, avô de Seu Antão, bisavô do Prefeito, bateu em um padre por motivos ignorados.  Seu Neco foi à igreja com um relho e avisou ao padre que veio para dar-lhe uma coça.  O religioso pediu para tirar a batina, mas escutou: Não.  Padre sem batina não é padre.  Dizem que o sacerdote rogou uma praga e Seu Neco morreu assassinado a tiros, tantos balaços quanto as lambadas que deu.  A praga foi tão forte, que daí para a frente os moradores do local só conheceram a pobreza. 

E o que dizem nossos valentes tropeiros que cortam estes sertões como oceanos sem fim? 
          Assombração?  Não adianta correr nem dar tiros.  Pra enfrentar tem que ter manha.  Falar as palavras de esconjuro, atravessar uma faca de aço na boca e morder a lâmina firme com os dentes.  Isto dá coragem, dá força na luta.

Já vendo o fundo da garrafa, vou me recolher mais cedo.  Enquanto durmo, escutem a história contada por aí, nas vendas e rodinhas reunidas pelas esquinas.  Mas por favor, não acreditem que dei o braço ao morto-vivo acompanhando-o de volta ao caixão!

Foi uma bela despedida.  Reunia a pompa de um velório de rico com a alegria, digo, tristeza, dos pobres.  O chefe da estação do trem de ferro fez um emocionado discurso, acompanhado de todos os ferroviários que trajavam seus uniformes de gala. 
O velório foi no saguão da estação que ficou lotada.  Pudera, quase quarenta anos naquele guichê. 
O Prefeito já falava há exatamente uma hora, quinze minutos e dez segundos e ainda nem tinha entrado na biografia do falecido. 
Todos perceberam que havia algo errado quando um funcionário cochichou nos ouvidos do Prefeito, que ficou mudo e sem cor.
Alguns afirmam terem visto o bilheteiro contraindo o rosto em sinal de descontentamento.
Ah... por aqui este não se elege mais.  Onde se viu contrariar um cidadão tão querido, justamente no dia de seu velório?
As autoridades e representantes da sociedade ficavam próximos do caixão.  A raia miúda pelos cantos e, um pouco afastadas, quase lá fora, Dona Mariazinha do Cajá com suas meninas do Beco do Mota.  Respeito era bom. 
Dona Berenice puxou um terço.  Dona Wanda mandou servir uma limonada.  Dona Maria Amélia regeu o coro das crianças.
Todos choraram.  Vozes infantis cantando têm um quê de tristeza.  Seriam as contradições entre a pureza e as incertezas do futuro?  Pode ser...
Lá pelas onze horas da noite, quando as autoridades e nobres representantes da sociedade já haviam se retirado, foi servida uma boa pinga.  Isto que é solidariedade humana!  Um simples bilheteiro sendo homenageado pelos fazendeiros da região com suas melhores cachaças, saídas dos alambiques para esta ocasião.
Tirando um soluço ou lágrima retardatária, o velório virou verdadeira festança, como reza a tradição popular. 
Seu Zéquinha da Viola dedilhou umas notas e começou animada cantoria.
E o forra-bucho?  Linguiça frita, torresmo crocante e até costeletas, pés e orelhas de porco. 
Todos bêbados, basta um começar a chorar e lágrimas são derramadas por todos, até dormirem pelo cansaço, ou talvez pelo álcool. 
No meio daquela roncaria toda, chegaram uns garimpeiros para a última homenagem ao nosso bilheteiro.  Sucesso no garimpo, lucro para as meninas do Beco.  Os “negócios” acabaram sendo feitos ali mesmo, atrás dos vagões do noturno que havia chegado no início da noite.

A culpa foi dessa pouca vergonha.  Logo que o dia raiou, o bilheteiro, indignado com a quebra protocolar, levantou do caixão, resolvendo ir por conta própria para o cemitério.
Se não fosse o Doutor Carlos, nem sei como acabava esta história toda. 
Será que ia adiantar a água benta do Padre Chico?


          Pela manhã tudo já havia voltada ao normal.  Meninos jogando pião, meninas pulando amarelinha. 
Passei pela estação e lá estava o bilheteiro em seu guichê como se nada tivesse acontecido. 
Gaguejei um “bom dia” e saí cambaleante. 
Belisquei o braço pra ter certeza não ser eu a tal assombração...

Dia de Assombração: sexto capítulo de Jequitinhonha.

Diamantina, MG. Foto T.Abritta, !965.

O Delegado coçou a cabeça, cofiou o bigode e achou que o caso de Seu Gonzaguinha não era assunto para polícia; aconselhou que procurasse o Padre.  Este, depois de pedir conselho à Virgem Maria, resolveu socorrer-se com o Médico.  Afinal, poderia até entender do sobrenatural.  Já alma penada matada, isto era outra coisa.
E assim fomos, eu e o Padre Chico, investigar o ocorrido.

          No caminho, Seu Gonzaguinha ia narrando os fatos:

          Moro perto de Biribiri.  Uma meia légua antes é só sair da estradinha e pegar um trilho à esquerda.  Passa um brejo, passa a serra e mais um pouco já dá pra avistar minhas terrinhas.  De noite, Deus me livre passar por aqui!  Vindo dos lados da serra, escutamos as cantorias dos escravos mortos nas minerações...

“Me desculpe, mas até aí morreu Neves.  Até hoje o povo ainda canta estes Vissungos do tempo da escravidão.  Das minhas andanças, tratando e vacinando este povo em minerações, até conheço alguns.”

Aiô!... T’Angananzambê, aiô!...
Aiô!... T’Angananzambê, aiô!...
Ê calunga qui tom’ossemá,
Ê calunga qui tom’Anzambi, aiô!...

Eu memo é capicovite
eu memo é cariocanga
eu memo é candandumba serena.

          “Não dá pra entender nada, já que misturam palavras de línguas africanas com o português.  Ainda por cima, tudo falado pela metade.  Apenas a entonação e ritmo é que dão o sentido: se é música de tristeza, saudação, revolta ou homenagem a defunto.”
          “Há uns dez anos esteve por aqui um estudioso registrando estas cantorias.  Seu nome, segundo o Doutor Ataíde, é Aires da Mata Machado Filho.”
“Bem, vamos voltar às assombrações.”

          ... quer dizer que, como eu ia contando, assombrações ficam bem longe, lá pros lados da serra.  Mas esta noite foi diferente.
          Um vento zumbindo, parecia que ia levar o telhado.  Portas e janelas rangendo.  Lá fora, gritos pavorosos, cachorros latindo.
          Pior quando começaram as batidas na janela do quarto.  Uns quatro toques misturados com rugidos, depois silêncio.  Falei com a mulher: “é o demônio que está lá fora!”
          Nos reunimos na cozinha, que fica nos fundos, e ficamos ajoelhados rezando, as crianças chorando.
          Alguma coisa tinha que ser feita!  Carreguei a espingarda três vezes, três descargas na janela.  E a “coisa” silenciou.
          Saímos pelos fundos, deixei a família em um sítio próximo, e aqui estou diante dos senhores.

          Com a primeira visão das terrinhas, Seu Gonzaguinha parou, eu e Padre Chico nos adiantamos mortos de curiosidade.
          Rodeamos a casa, mas nada assombroso foi encontrado.  Apenas a janela despedaçada pelo chumbo grosso, galhos cortados de uma roseira e o cheiro inebriante de botões de rosas espalhados pelo chão. 
          Com a ventania, provavelmente a roseira balançava, os botões batiam na janela, e a imaginação criava vozes e todo o cenário aterrorizador.
          Pelo sim pelo não, Padre Chico enterrou os botões de rosa – quem sabe não personificavam almas penadas? 
No final do “funeral”, tudo foi bento conforme a tradição.
          Restabelecido o reinado da paz divina, a família voltou para o lar, uma galinha foi morta e servido um irresistível guisado com farinha e muita cachaça.

          Retornamos pela noitinha. 
O céu prateado por um manto de estrelas.  O Carreiro-de-São-Tiago, como o povo chama a Via Láctea, brilhava como nunca.  O Cruzeiro do Sul, que a linda Sofia não quis fitar, como lhe pediu Rubião, eternamente orientando os viajantes.  Invisíveis ao olhar, estrelas duplas completavam o cenário. 
Nem sempre o real é o que vemos.  Seriam as assombrações de Seu Gonzaguinha menos reais do que estes astros misteriosos? 
          Quando Machado de Assis escreveu o conto Minueto – usando uma das mais belas metáforas “astronômicas”, ao comparar a alma da pobre Maria Regina, dividida entre dois amores, a uma estrela dupla, de cuja existência o autor tomara conhecimento através de publicações científicas da época –, não poderia ser acusado de estar vendo assombrações celestes?
          Noite propícia para reflexões.  O que seria a verdade?  O que seria o real?  Certamente não podemos confiar plenamente em nossa experiência subjetiva, ou mesmo objetiva.  A maior parte do mundo físico é imperceptível.  Muitas vezes vemos e sentimos coisas que não existem. 
          Portanto deixemos as assombrações de Seu Gonzaguinha vagarem nos rugidos dos ventos ou repousarem em singelos botões de rosa.


          E uma estrela cadente riscou a abóbada celeste.