Botswana, Foto T.Abritta, 2008

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Ladrões e Assassinos: quinto capítulo de Jequitinhonha


Diamantina, MG.  Foto T.Abritta, 1965.

          Entramos no Arraial quase a galope.  Mas as notícias, como se trazidas pelo vento, já nos aguardavam.  Janelas entreabertas mostravam olhares apreensivos.  Garruchas e carabinas enferrujadas prontas para o combate.  Não parava de chegar gente com foices, porretes e facões.  Eu tinha que ser rápido.  Martelei o meu laudo na máquina de escrever: a vítima estava caída de bruços, provavelmente devido a uma pancada na omoplata direita com objeto contundente que a fraturou, como mostra a fotografia em anexo... O tiro, calibre 38, entrou pela nuca, fragmentando a coluna cervical, saindo pelo frontal, conforme mostrado nas fotos tais e tais...  Substituí as fotografias por desenhos, já que Seu Alcir ainda levaria uns dois dias para revelar e secar os negativos e ampliações.  Corri para a casa do Promotor e em poucos minutos o Juiz assinava o mandado de prisão preventiva.

          Ainda escuro, começamos os trabalhos naquela colina ventosa onde ficava o cemitério.  Apenas o ruído das pás e picaretas no solo pedregoso.  Seu Alcir, ao meu lado, tremia, não sei se de frio ou pavor.  Pudera, também nomear um fotógrafo de casamentos, festas infantis, bodas e batizados como perito ad hoc para fotografar defunto. 
          Como eu previa, pela composição química do solo, o cadáver ainda não estava decomposto totalmente.  Partes mumificadas, outras em lenta decomposição espalhando o cheiro da morte.  Providenciaram um estrado de tábuas para servir de mesa pericial.  Todos, com os rostos cobertos por panos molhados, trabalhávamos escavando, peneirando a terra para recolher fragmentos da bala e ossos.  Eu e Seu Alcir, curvados sobre os restos mortais.
          Esta era minha primeira exumação.  Por aqui, normalmente, quem morreu, morreu.  Enterrado, ficava para sempre.
          Mesmo acostumado com o sofrimento e sempre pensando na beleza da vida, sentia vontade de chorar com a evidência das maldades perpetradas contra Seu Onofre.  A me animar, apenas a lembrança das cantorias de Dona Cassandra clamando por Justiça.
          Com os primeiros raios de sol, o triste piado de um pássaro: u, u, u, uuuu...Seria a pomba-mineira? 

          Agora entendo o que considerava um desvio patológico, aquela mania do Promotor em perder tanto tempo escutando as histórias de João França e do Comandante Santos Lima:

          Eram tempos bons demais.  Saía com duzentas cabeças de gado e chegava ao mercado com quinhentas.  E quem ia reclamar?  Tinha um lugarejo onde o padre vivia pondo coisas na cabeça do povo.  Claro, era sempre contra mim.  Aí eu avisava: “vou passar em meio ao casario com quinhentas cabeças de gado xucro.  Se alguém abrir a janela, um cachorro latir ou mesmo uma criança chorar, o gado estoura e acaba com tudo”.

          E João França, ladrão aposentado, castigado com uma cegueira, dava gargalhadas, revirando as órbitas mortas pela maldade.

          Pior ainda eram as conversas com o Comandante Santos Lima – era assim que gostava de ser chamado.  Dizem que foi tenente da Marinha Mercante, expulso pela morte de um grumete numa situação obscura, vamos dizer assim:

          Quando eu era delegado... Onde?  Era lá, quase chegando na divisa com o Espírito Santo... Não tinha esta de valente comigo não.  Uma vez arrancamos as unhas de um desafeto do prefeito e rachamos sua cabeça com pauladas.  Tudo dentro da lei: na ocorrência foi registrado que o preso desesperado com a privação de sua liberdade subia pelas paredes cravando as unhas na alvenaria e depois pulava de cabeça contra o chão. 

          O promotor escutando sério, eu e Seu Anízio horrorizados, encolhidos num canto da venda.

          ...de outro acontecido, avisaram que os presos estavam cavando um túnel para fugir.  Peguei um facão e fiquei esperando na escuridão.  Assim que a primeira cabeça saiu do buraco, puxei pelos cabelos e decapitei o desgraçado.  Depois ainda avisei: “pode vir o próximo”.  Ficou uma pilha de cabeças de um lado e corpos decapitados do outro.  No relatório ficou registrado que após a fuga os condenados entraram em contenda, matando uns aos outros.
          Teve um infeliz que executei com um tiro na nuca.  Era um passante, que não sei por que, me deu implicância.  Como eu ia saber que era filho de gente graúda lá da capital?  O jeito foi fazer um relatório dizendo que foi morto numa briga por mulher ao atacar seu desafeto que, em legítima defesa, meteu-lhe um balaço na testa.  Afinal, bala que entra sai, e a que sai pode entrar.  É como aquela lição da escola: “no mundo nada se perde, tudo se transforma...”

          O rosto do Promotor contraiu-se todo – pensei até que ia ter um ataque de coração – e balbuciou: Seu Onofre... Saiu sem despedir de ninguém.
          Diante de nosso olhar, misto de nojo e desprezo, o Comandante Santos Lima foi embora meio ressabiado, sem entender o que estava acontecendo.

          Gostaria de ficar dormindo e sonhando eternamente.  Às cinco horas da manhã o moleque trouxe o cavalo selado e fomos todos, ao passo, pela estradinha do cemitério.  A determinação do grupo não afastava a tristeza. 
          Eu mantinha minhas forças pensando nos sonhos daquela noite.  Sonhei com o jovem Sherlock Holmes do livro Um Estudo em Vermelho – o aprendiz de detetive cursava diferentes Faculdades e não terminava nenhuma.  Da Medicina estudava Anatomia, da Química as substâncias venenosas, do Direito a legislação criminal e Medicina Legal, assim por diante.  Foi até expulso de um curso de Medicina por chicotear cadáveres em seus experimentos para estudos de lesões.  Lembrava até o Promotor e sua “mania” de ficar escutando as barbaridades daqueles monstros.

          A prisão foi rápida e eficiente.  Valtinho dormia, como sempre fazia após suas noitadas, no Beco do Mota, lá na casa de Dona Mariazinha do Cajá.  O Delegado, ar contrariado, meteu-lhe as algemas e foi levando o traste todo borrado e molhado.  No caminho, populares cuspiam no preso e no desmoralizado delegado.  Uns debochavam do Coronel e do Prefeito, que sumiram alegando estarar constipados.
          Da fazenda chegavam as notícias de que Seu Valter morreu de ataque cardíaco, dando tiros a esmo, tentando matar os empregados que sumiram após os acontecimentos.
          Com tanta alegria e cachaça nas comemorações, dia de trabalho para o Médico.  Hoje apenas um ferido a bala, duas facadas e uma cabeça para costurar.  Felizmente tudo sem gravidade.  Fatos tão rotineiros que não mereceram registro policial.  Pela manhã, passada a bebedeira, agressores e agredidos perdoando uns aos outros. 
          E a Vida continua.  De noite, o parto de Dona Clarinha.  Uma linda menina chamada Cassandra.




terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Cavalo Mineiro, Cavalo Matreiro: quarto capítulo de Jequitinhonha.


Diamantina, MG.  Foto T.Abritta, 1965

          Hoje foi um dia cheio.  Não aqui em São Paulo, onde pacientemente tento retomar o rumo desta narrativa.  Cheio foi lá na Cidade, onde três ocorridos provocaram tantas emoções e falatórios, mas, por outro lado, envolvendo supostos fatos de difícil comprovação.  Infelizmente não podemos fiar muito na boca deste povo.  Afinal, quem conta um conto acrescenta um ponto – transformam o que imaginam ter acontecido em realidade.
          Pensando bem, não é assim que funciona a Literatura?  Logo, juntando um disse aqui com outro ali; deixando alguns de lado ou pelo menos cortando pela metade, vamos à nossa história:

          Hoje amanheceu um pouco frio.  A garoinha caindo, ninguém pelas ruas.
          Entretanto, olhos invisíveis tudo viam, ouvidos mágicos escutavam através das paredes. 

          Chico Diabo subia vagarosamente a Rua do Amparo.  Dava uns passos, parava desconfiado, olhava para os lados e para trás.  Tirava o quepe e enxugava a testa com o antebraço, ensebando cada vez mais a túnica mal cheirosa.  Parou na frente da porta do Promotor, que abriu como se já o esperassem.  Entrou naquele escritório onde jamais pensaria estar.  Era como se uma ave de rapina, acostumada a grandes alturas, onde saboreava o sangue de suas vítimas, fosse obrigada a conviver ao rés do chão, vulnerável entre seres humanos.  Situação inusitada e humilhante para quem faz da morte seu meio de vida.
          De um lado da mesa o Promotor.  No outro, sentado em um tamborete de tiras de couro, o Cabo.  Suava frio, arrependido de não ter vindo armado.  Nem a garruchinha presa na perna.  Era como se estivesse nú:

Dizem que eu sou o Chico Diabo.  Mas, e este Promotor?  Mandar que me sentasse de costas para a janela é uma grande judiação que pode ser fatal para um matador.  Mas como pedir para mudar de lugar sem fazer desfeita?
A cada instante o Cabo coçava a nuca, como se esperasse um tiro de tocaia. 

          Seu Macrínio, assim que viu Chico Diabo sumir na porta do Promotor, apressou o passo, o que não mudava muito o seu vagaroso andar:

          Todo mundo me conhece, né?  Desde que quebrei a perna com o coice daquele cavalo xucro que estava ferrando, é uma penação andar nesta cidade ladeirosa.  Dou uns passinhos, paro aqui, depois ali e também acolá.  E assim vou por aí.  Juro que estava do outro lado da rua e escutei vozes:

“...com você a minha arma será apenas uma caneta!  Desta arma você não entende!”
Dona Orsina, que vinha descendo, pode confirmar tudinho:

          Escutei bem.  Estou meio esquecida, mas não sou surda:

“Doutor, não faz isso comigo não, estas coisas é tudo falatório deste povo.  Sou gente de bem.”

          E o Cabo Chico Diabo saiu de olhos arregalados, subiu pros lados da Estação de Trem de Ferro, entrou numa vendinha, ficou bebendo, bebendo e falando sozinho:

O Promotor disse que nem um balaço bem dado pode acabar com a caneta.  Foi covardia pura.  Só estive seis meses na escola.  Assinar o nome aprendi.  Mas este negócio de quatro operações e soletrar era para maricas.  Com dezesseis anos despachei o primeiro.  Segurar uma arma é mais fácil do que rabiscar com cotocos de lápis.  Bem que o Coronel avisou pra não dar conversa.  Era só esperar a ordem da tocaia. 

          Foi visto pela última vez lá pros lados do Vau.  Uns dizem que caiu no rio.  Outros escutaram medonhos gritos e uivos; um fedor de enxofre e viram um fogo saindo do chão.  O fato é que sumiu para sempre, deixando apenas assunto para comentar:

          O Doutor é mesmo como o povo fala: valente com armas e palavras.  Acabou com o gatilho assassino do Cabo Chico Diabo apenas com uma prosa.

E davam boas gargalhadas...

          Enfim um pouco de tranquilidade – hora de almoço.  Ruas vazias, uns descansavam, outros estudavam com as crianças.  Mas os gritos do moleque dando o recado quebraram a paz:

Seu Rocha avisou que vai matar o Coronel!

          O Promotor só teve tempo de vestir o paletó e pegar o chapéu.  O revólver, claro, nunca saía da cintura. 

          Agora, felizmente, temos Seu Rocha para relatar o ocorrido:

          Eram uns dez soldados e o desgraçado fumando, cara de deboche, esperando a minha reação.  Todos parados em frente da minha casa.  Em respeito pedi para avisarem ao Doutor.  Dava pra acabar com o Coronel e uns dois ou três meganhas.
          Ninguém havia falado comigo assim.  Cheguei a levar a mão na arma.  Só não fui adiante porque ele nem ligou e continuou a falar.  Assim combinamos de sair bem devagar, paletós abertos, armas à mostra – pessoas decentes não exibem revólveres em vão.  Pela ética, se mostrou, é para ir até o fim.
 O Promotor ficava encarando o Coronel.  Qualquer piscada tacava fogo.  Eu cuidaria da soldadesca.  Disto sei bem.  Nos primeiros tiros mandava dois ou três para o Inferno.  Se o resto não corresse, rolava pelo chão acabando com mais alguns.  Depois só Deus sabe.
          Foi igual à história da caneta:
O Coronel, pra não sair de fininho, fazia um sinal, e um soldado ia embora.  E assim outro e outro.  No final acendeu um cigarro e saiu devagarinho.  Ainda chegou a escutar as risadas do povo.

          Mas o dia ainda não terminara.  Novas Surpresas:

          Seu Rocha, Seu Rocha, Desatino partiu, a todo galope, lá pros lados da Praia da Sentinela!
          Não é lá que o Coronel gosta de ficar treinando tiro?
          Isto é questão de honra.
Vamos ter sangue frio e aguardar o desenlace!

          Depois de tantos sustos, um pouco de chacota, deboches e gargalhadas.
Não é que os dois chegaram juntos e ao passo?  Um, desmoralizado, o outro, cara séria, mas escondendo sorrisos!

          Eta caneta danada!  Falou Seu Abílio.  Eu estava procurando meu cabritinho fujão quando escutei o tiroteio.  Escondi-me numa touceira, abracei o bichinho e fiquei observando.  O Coronel descarregou diversas vezes num toco em cima daquela pedra perto do rio.  O Promotor chegou por trás dando apenas um único tiro.  O toco voou longe.  Depois falou:

“Assustado?  Vamos ver quem acertou?  O meu é trinta e dois, o seu trinta e oito.”
“Neste caso é melhor irmos embora juntos.  Tem uma onça rondando por aí.  Na verdade é uma jaguatirica – animal inofensivo.  Mas, com sua pontaria, é capaz de dar um tiro no pé.” 
Tive que fazer força para prender o riso!

          Tanto tempo, eu já velho, só agora me encantando com a magia da Literatura.  Sempre fui grande leitor.  Meus livros, todos sublinhados, cheios de observações nas margens e papeizinhos amarelados marcando as páginas consideradas importantes.  Isto muito me facilita.
          O difícil é me afastar desta objetividade da escrita técnica, onde tudo tem que ser fundamentado.  Deveria confiar mais no Relator Onisciente, não ficando tão preocupado com veracidade e verossimilhança dos depoimentos, ou melhor, das falas dos personagens.  Mas, por outro lado, não é tão mais fácil contar com as palavras destes amigos?

          Tais reflexões acabaram levando-me ao passado, às aulas de História da Medicina. 
          O curso tinha um extenso programa: Medicina Egípcia, Esculápio, Hipócrates, Galeno, William Harvey, Pasteur e muitos outros.  Mas o professor gostava mesmo é da História Clássica.  Assim que abria a História de Heródoto, começavam suas divagações e comparações com Tucídides, Píndaro, Políbios e outros Historiadores Clássicos. 
Heródoto fazia distinção entre o que ele viu e o que ele ouviu dizer.  Ou seja, informações não confirmadas.  Tucídides buscava o que seria a verdade histórica incontestável.
No fundo a Ciência Histórica nunca afirma clarear plenamente o mundo de sombras dos acontecimentos.  Felizmente existe a Literatura que chega à sua verdade, sem, entretanto, mentir e anular a busca dos Historiadores nos escuros labirintos do tempo.  Mas concordamos que tanto os Ficcionistas, como os Historiadores ou Cientistas – aí incluo Médicos como eu –, perseguem as palavras lapidares de Tucídides, deixadas em sua História da Guerra do Peloponeso:


          “... nunca tantas cidades foram capturadas e devastadas... nunca tanta gente foi exilada ou massacrada, nunca tantas cidades sofreram uma mudança total de habitantes... Quem quer que deseje ter uma ideia clara, tanto dos eventos ocorridos quanto daqueles que um dia voltarão a ocorrer em circunstâncias idênticas ou semelhantes..., julgará útil a minha História.”

domingo, 10 de janeiro de 2016

Desatino: terceiro capítulo de Jequitinhonha


          Ontem, olhos marejados.  Hoje, uma bela história.  Nem os já costumeiros falatórios podem atrapalhar.  Simplesmente ignore-os.
          O sol brilha nesta cinzenta São Paulo.  E estou inspirado:

          Toda manhã, bem cedinho, ainda escuro no inverno, o moleque traz um cavalo e o Promotor parte para destino incerto.

          Será que ele tem outra família?  Um santo de pau-oco!

          O pasto está verde.  O cavalo relincha, ergue as patas dianteiras saudando o amigo.  Bicheiras quase curadas.  Apenas um pouco de pomada Crino-D nas escaras.  Sabão preto na tábua de pescoço para evitar morcegos.  Crina e rabo sedosos, cascos endurecidos.  Em mais uns dias acabará sua solidão. 

          Domingo.  Todos na missa.  O tropel estremece a Rua do Amparo.  Pelo bater de cascos, a montaria não está ferrada.
          O moleque apeia, o Promotor sai correndo, ainda de chinelos e paletó de pijama.  Tempo apenas para enfiar uma calça de casimira.

          Além de não ter compostura no vestir, um ateu.  Deveria estar na missa.  
Enquanto a mulher reza, começa o dia pecando com outras...

          Amarra o cavalo na maçaneta da porta e corre para dentro.
          Tragédia anunciada: na esquina aponta o Buick de Seu Zizinho da Pedra – como o povo chama o proprietário da Fazenda da Pedra.
Ruído ensurdecedor, fumaceira fedorenta do gasogênio.  Em tempos de guerra era assim: na produção do gás combustível eram usadas pedras de carbureto – carbeto de cálcio – que em contato com a água produzem o gás acetileno que é queimado.
          Diante do monstrengo ameaçador, o cavalo empina, cascos na porta que racha ao meio.  O Promotor aparece e grita: vai se chamar Desatino!

          Na pequena aglomeração que vai se formando, agora palavras de simpatia:

          Vocês viram?  Entrou com o cavalo casa adentro.  Está atravessando o corredor.
          Está lavando Desatino no tanque dos fundos.
          Agora está escovando.
          Está sendo selado.
          Lá vem ele.
          Montou
          Subiu a rua a galope.
          Vai descer.  Sai da frente!
          Será que para?
          Deslizou uns dez metros no pé de moleque...
          e não caiu!
          Melhor ferrar este cavalo.

Assim um cavalo conquistou a Cidade.  Histórias bonitas devem ser curtas e ter final feliz.
Todos acenavam, todos falavam: lá vai Desatino e o Promotor.


          Mas tomem cuidado.  Nem sempre a palavra cavalo, ou mesmo muar, é usada como denotação de seres alegres e inofensivos como Desatino.  A pequena e antiga história abaixo fica como alerta:

Reza a lenda que o rei lídio Creso envolveu-se excessivamente com Oráculos e tentou conquistar o gigantesco império Persa.  Acreditava nas informações oraculares de que só perderia a guerra com este poderoso país, se ele fosse governado por um mulo.  Após esta insana aventura, Creso voltou ao oráculo para pedir explicações e escutou que Ciro, o rei dos persas, devido a sua estupidez era considerado um mulo por estes religiosos. 
Como sempre, no final, o povo paga o “pato”, conhecendo os lídios o rigor da escravidão persa.  Em última análise, isto acontece por aqui, onde “oráculos” exploram a religiosidade e a fé popular, cultuando a ignorância e submissão ao poder.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

O Promotor de Fora: segundo capítulo de Jequitinhonha


Serro, Diamantina, Itamarandiba.
Couto Magalhães, Capelinha, Turmalina.
Berilo, Minas Novas, Chapada do Norte, Grão Mongol.
Virgem da Lapa, Novo Cruzeiro, Araçuaí, Padre Paraíso, Itinga.
Itaobim, Rubim, Salinas, Joaíma, Medina, Pedra Azul.
Jacinto, Almenara, Jordânia, Mendanha.
Sopa, Milho Verde, Biribiri.

Tantas cidades, tantas vilas, tantos arraiais, povoados, lugares e lugarejos.  Parece até um poeminha piramidal.  E olha que faltaram muitos.  Não vejo, por exemplo, o Vau – onde os viajantes atravessavam o Jequitinhonha.  O nome do povoado acabou confundindo-se com a poesia geográfica.  Mas onde trocar o cravo de uma ferradura?

Imenso Vale do Jequitinhonha.  E lá, justamente lá, acontece isto.  Naquela Cidade, sede de Bispado e de quartel da Polícia Militar.  Paisagem de minério, riqueza, sonhos de garimpeiros, solidão de tropeiros.
Imutável ordem de pedra e muitos ais.  O povo até diz: cidade do p – pedra, padre, polícia.

          No mercado, vendas, vendinhas e biroscas; no barbeiro, ferreiro, sapateiro.  Nas esquinas da Praça – onde fervia o comércio de pedras –, no clube e até na cadeia.  Fosse na saída da igreja ou no Beco do Mota.  O falatório era o mesmo:
          Um Promotor de fora?  Como pode?
          Não é filho da Terra!  Não devemos tolerar!

          Alguns tentavam a desqualificação social bisbilhotando os trens do Promotor:
          É um João ninguém!
          Vocês viram?  Apenas móveis velhos: cama de casal bem pobrinha, guarda roupas de pinho, bercinho já usado para o filho que vai nascer, mesa de escritório e cadeira já descascadas; um sofá velho, mesa de tábuas e quatro cadeiras para a cozinha.  Ah, a bateria cheia de panelas amassadas, duas estantes feitas de caixote e montes de livros velhos.  Um pobretão! 
          Tem apenas uma mão na frente e outra atrás! 
E riam debochadamente.

          Outros, mais agressivos, pressentiam seus reinados ameaçados:
          O Coronel tem que tomar providências!  Senão entro na cidade com meus homens! 
Mal sabia Seu Valter o que iria acontecer com o filho – assassino e braço direito – Valtinho.

          Até aos sentimentos familiares e cínicas tradições, apelavam:
          Não sei como Seu Ari pode alugar casa para um promotor casado.  Afinal tem três filhas solteiras.  A mais velha, professora formada, já vai pros seus dezenove anos.
          Neste caso discordo, basta Seu Ari não ser tão exigente que não faltarão pretendentes.  Reza a tradição que marido de professora não precisa trabalhar. 
E brindavam à beleza da jovem, entornando mais um trago.

          As notícias se agravavam:
          Imaginem... mesmo de dia o promotor tranca à chave a porta da sala de sua casa.  Intolerável ofensa para todos nós! 
          Ontem ele chegou à janela, cara de nenhum amigo e ficou examinando, contra a claridade, as raias da carabina.
          Boa coisa não planeja.
Apenas arma de qualidade não garante tiro certeiro.
A bala que vai, também vem.
          Ainda contarei esta história de trancar portas, bem como a saga daquela carabina.

          Hoje pela manhã foi pior:
          O Promotor mandou fechar a porta da cadeia.  Já pensou, se você dá azar de atirar num desafeto qualquer e acaba na jaula como animal?
          Agora é assim: se der uns tiros para defender sua família fica desonrado.
          O Tenente-Delegado falou serem ordens assinadas pelo Juiz: “recolha os presos, mande chamar até em casa, se for necessário – sempre seria – e passe o cadeado”. 
Não adianta agora o Delegado ficar se lamuriando por aí: “estou muito envergonhado e blá-blá-blá”.  O fato é que acabou aderindo ao intruso.  Até o Prefeito declarou ter sido apunhalado pelas costas pelo ingrato.


          É interessante ressaltar que, mesmo os mais humildes, sempre explorados e ofendidos, também compartilhavam das opiniões de seus opressores, acabando por defendê-los.  Não vejo nisso uma traição de classe.  Tenho muita compaixão por este povo que de tão oprimido acaba cultuando Belial, o Deus do Mal, na esperança de aliviar a severidade dos castigos.  São anos, quase eras geológicas, a cristalizar camadas da desigualdade social.  Só trabalhando muito, dando todas as oportunidades para esta gente se educar, um dia a sociedade será transformada.
          Um bom exemplo desta distorção foi a passagem da Coluna Prestes pelo Nordeste.  Quanto mais pobre a região, maior resistência enfrentava.  Solitários, sertanejos ajoelhavam-se nas estradas, peito aberto, e atiravam matando meia dúzia de soldados, até serem impiedosamente abatidos.  Inúteis mortes, verdadeiras imolações.  Nem sequer arranhavam o poderio dos coronéis.
          Aqui tive que parar a escrita, enxugando as lágrimas nos olhos vermelhos.  Lembrei-me de Che Guevara e sua aceitação fatalista de um povo simples, que não o compreendia e não o aceitava, delatando-o, traindo-o, vendendo vidas de jovens e idealistas guerrilheiros ao exército boliviano – a mesma força de repressão que massacrava esses índios a serviço de companhias multinacionais.  Mas Guevara estoicamente aceitava essa realidade.


          Se desconfiassem, eu seria um homem morto.  Já fiz quase uma dúzia de exames de corpo de delito e em breve faremos a exumação do cadáver de Seu Onofre, marido da Dona Cassandra – que já anda sorridente pelas ruas, cantando uma antiga cantiga de roda de Araçuaí:

          Palmatória quebra dedo
Chicote deixa vergão
Cassetete quebra costela
Mas não quebra opinião

          Na antiga Grécia o personagem mitológico Cassandra encarnava o sofrimento feminino através dos tempos. 

Porta dos Leões.  Micenas, Grécia.  Foto T.Abritta, 1990.

...as muralhas ciclópicas, que hoje, assim como antigamente, orientam o caminho para o portão sob o qual nenhum sangue brota.  Para as trevas.  Para o matadouro. E sozinha...
(Cassandra, Christa Wolf)


          Cassandra, por não corresponder ao amor de Apolo, foi punida, perdendo a credibilidade de seu dom profético.  Era capaz de prever o futuro, alertar os homens das tragédias iminentes, mas nunca levada a sério.  Previu a Guerra de Troia, massacres e tiranias, mas sempre diante de ouvidos surdos aos seus vaticínios da destruição desta cidade.  Terminou levada como despojo de guerra para Micenas, onde foi assassinada.

Aqui será diferente.  Nossa Dona Cassandra sertaneja será levada a sério e muitos pagarão por seus crimes.  Na prisão, ou com a própria morte.  Vou logo alertando.
          Inexplicáveis coincidências e ironias desta vida.
Um pouco da injustiça ancestral resgatada neste fim de mundo.




quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Jequitinhonha

Hoje, 7 de janeiro de 2016, o meu pai , Oduvaldo Abritta, faria cem anos de idade. Abaixo publico o primeiro capítulo do livro Jequitinhonha, que pretendo lançar em sua homenagem, neste ano de seu centenário de nascimento. 
A história se passa entre 1939 e 1946, quando foi Promotor em Diamantina, cidade de nascimento de duas de minhas irmãs e de meu nascimento em 1946.  

O Herói Anônimo

          Existe heroísmo se não for acompanhado de reconhecimento público?  Tem sentido falar em heroísmo diante de uma disposição de bravura e determinação envolvendo apenas estados emocionais provocados por situações imaginárias? 
          Médico de uma cidade perdida nestas bandas do Jequitinhonha é assim: ou passa o tempo tomando sua cachacinha ou fica lendo e meditando enquanto não aparecem partos nem doenças.  Os casos mais graves, em geral, não dão muito trabalho – vou logo adiantando o atestado de óbito.  A turma por aqui não erra tiro de tocaia.  No fundo o Promotor tinha razão.  Muita gente ruim.  Dizem que é o frio do inverno, a chuvinha fina caindo dia após dia, velhos muros desabando com a umidade.  Por outro lado, aqui não é vergonha ficar caído num beco qualquer de tanto beber.  Nisto são atenciosos.  Vão logo falando: garoto, vai avisar dona fulana que seu sicrano tá caído...  Todos têm uma história de parente que morreu de cirrose hepática. 
          Acabei interrompendo o assunto “heroísmo”.  Mas se tiverem um pouco de paciência entenderão o rumo desta escrita. 

O Juiz da cidade estava sempre nas nuvens.  Diziam que já foi grande jurista e literato promissor em Belo Horizonte.  Seu sucesso foi sua desgraça.  Nomeado por mérito para esta Cidade no Vale do Jequitinhonha, acabou esquecido, abandonado neste fim de mundo.  Pela manhã despachava no Fórum.  Assim que acabavam as audiências, livrava-se dos processos dando as sentenças.  Mãos trêmulas, passava na venda de Seu Anízio.  Depois de alguns tragos, entre uma prosinha sobre política e o tempo, ia para casa.  Sempre entrava pela porta da cozinha.  Levantava a tampa das panelas com a ponta da bengala e reclamava grosseiramente da comida – por isto era odiado por todas as mulheres da cidade: como pode tratar Dona Berenice assim?  Verdadeira santa!  Passava as tardes e noites na sua biblioteca, único refúgio neste fim de mundo. 
Eu gostava de visitá-lo e ficar escutando verdadeiras aulas de Literatura.  Declamava poemas, recomendava livros e falava de algumas raridades bibliográficas em suas estantes.  Foi lá que li, na Revista Brasileira, os contos de Affonso Arinos.  Sempre que uma tropa chegava ao Mercado Municipal, pensava logo no conto Assombramento, onde o tropeiro Manuel lutava contra fantasmas de sua imaginação, mas paradoxalmente tão concretos em suas evidências observáveis.  Complicado?  Não, maravilhoso.  Uma obra prima de histórias deste Sertão.  No final da luta, entre exaustão total e delírios, as palavras de bravura: “Eu mato!... mato!... ma...”.  Verdadeiro herói diante dos demais tropeiros. 

          Quando seu Anízio “convocou” aquela reunião em sua venda, não imaginava tratar-se exatamente deste assunto. 
          Os leitores mais velhos me compreenderão.  Aos mais novos, peço paciência.  Depois de certa idade, nem sei por que esta mania irritante de datas, nomes e detalhes completos.  Quem sabe um aperfeiçoamento intelectual? 
          A data não posso precisar.  Mas o ano foi 1942.  Estava fazendo o parto da primeira filha do Promotor, recém chegado para esta comarca, enquanto o rádio do vizinho noticiava a guerra, com as primeiras vitórias do Exército Vermelho contra os nazistas em Stalingrado.  Parece que foi ontem.  Eu pensava: aqui, a vida.  Lá, a morte. 

          Fui o primeiro a chegar.  Esperei um pouco, enquanto seu Anízio ajudava a colocar na carroça as compras de um garimpeiro. 
          Logo chegou o Promotor, meio de lado, mostrando que alguma coisa não ia bem.  Seu Rocha foi o último a aparecer e foi logo falando: chega de poetagem, seu Anízio, conta logo o ocorrido.

          Pensando bem, este não é um texto literário.  São anotações, onde vou organizando minhas ideias.  Futuramente faço a revisão e acabo chegando a uma escrita mais fluida e agradável.  Espero que tenha tempo para isto.  Devo mudar nomes e transformar pessoas reais em personagens.  Assim tenho a liberdade de ir escrevendo, em pequenas doses, as informações que chegam da memória tão apagada.
Por exemplo, quanto ao ano 1942, fiz também um cálculo objetivo.  Carregava na carteira aquela lista de endereços e telefones de pessoas a serem avisadas quando eu morresse.  Lá estavam os nomes da filha mais velha do Promotor e de seu marido.  Fui padrinho deste casamento.  Tenho aqui o convite junto com o recorte de jornal que publicou sua redação quando ela fez a prova para o Instituto de Educação no Rio de Janeiro.  Estive também na sua formatura de Normalista.  De vez em quando saía de São Paulo e visitava amigos no Rio. 
          Bem, seu Rocha não pode mais esperar.
          Deixemos Seu Anízio narrar o ocorrido.

          Ontem à noite apareceu lá em casa, pedindo socorro, a mulher do Promotor carregando a menina no colo.  Pedi a Rosa para cuidar das duas e corri para chamar seu Rocha.  Doutor Carlos ficava para depois.

          Pode falar que não me ofendo.  Atestados de óbito não são urgentes.

          Seu Rocha, vocês sabem como é...

          Aí você está certo.  Ando com os dedos coçando para dar um corretivo naquela corja.  Semana passada mesmo, o Coronel passou bem devagarinho na frente da minha casa.  Quase que respondi à provocação.  Perdi uma grande oportunidade.  Em geral, quando ele passa, vão dois soldados na frente e dois atrás, carabinas na mão, olhos atentos.  Desta vez estava apenas com o Cabo Chico Diabo.  Dava pra acabar com os dois.  Só não cumpri a missão em respeito ao Promotor. 

          Quando cheguei na esquina dei de cara com a procissão noturna que acabava de descer pela Rua do Amparo.  Corri e encontrei o Promotor fumando na janela...

          O susto foi grande.  Depois que saiu a charge no jornal – com um sujeito magricela, de óculos, montado de costas num pangaré, seguido por uma mulher a pé com uma criança no colo; todos sendo expulsos da cidade debaixo de uma chuva de ovos podres – fiquei cismado.  De manhã, quando escovava os dentes no tanque, já ia com o revólver no bolso do pijama.  Minha mulher foi quem me acordou, dizendo: “estão chegando”.  Só tive tempo de colocar um caixote nos fundos do terreno para ela subir, pular o muro dos fundos e falar: “se esconda na casa do Seu Anízio que vou depois”.
          Coloquei o sofá atravessado no corredor, entre as portas do quarto e do escritório, me escondi atrás, a 44 com bala na agulha e o revólver à mão.  Munição espalhadas pelo chão para facilitar as recargas.  De lá podia vigiar a janela do escritório à esquerda, a janela do quarto na direita e a porta de entrada na frente.  Em um dos três pontos entrariam primeiro.  Só atiraria em quem colocasse um pé dentro de casa.  O vozerio foi aumentando, aumentando, e por milagre começou a diminuir, diminuir.  Já escutava claramente as rezas, com todos os améns  Quando abri a janela, ainda cumprimentei alguns conhecidos na procissão.  Acendi um cigarro e logo chegou Seu Anízio todo assustado. 

          Mas, Doutor Promotor, eu já disse que este era um problema resolvido.  O Senhor não confirma, ninguém fala nada, ninguém viu.  Mas todos comentam que o grandalhão se molhou todo quando num beco escuro, com o cano do revólver no nariz, foi obrigado a engolir a charge.  O povo ri um bocado dizendo que deveria obrigá-lo a engolir o jornal todo.  Bem, esta história é de difícil comprovação.  Mas gostei do seu sangue frio ao ir embora, dando as costas para um homem daquela importância, todo molhado, com aquele trabuco na cintura.  O risco foi grande.  Como já disse, o estilo aqui é tocaia pelas costas.  Até o Coronel, na hora de matar, e foram muitos, manda Chico Diabo armar tocaia.  Crime de honra não.  Aí tem que ser pela frente e à luz do dia.  De preferência na praça principal com todo povo saindo da missa para assistir.  É como se fosse uma cerimônia pública.  Mesma coisa que batizado ou casamento. 

          De matar e morrer Seu Rocha é conhecedor.  Eu, apenas pacífico comerciante.  Doutor Carlos, então, está lá do outro lado, tentando consertar, salvar, lutando pelo Socialismo e um mundo mais justo.
          Bem, vamos tomar um gole e brindar, com todo respeito, nosso herói anônimo!

          As palavras finais de Seu Anízio foram encantadoras.  Homem simples do Sertão usar expressão tão casta: Herói Anônimo.  Nova categoria literária a enriquecer o conhecimento, somando-se à Poética de Aristóteles com o Herói Trágico condenado por um único erro.  Pequeno deslize involuntário ou impensado – a Hamartia.  Aqui não.  Nosso Herói é desconhecido, anônimo, não busca fama, nem reconhecimento.  Não é assim a vida do povo nestes fundões brasileiros? 
          Histórias regionais não significam apenas interesses e objetivos restritos.  Podem ter um caráter universal, discutindo grandes temas como a Violência, Opressão, Solidão, Tristeza, Morte.  O Homem é o mesmo, apenas cenários mudam.  Seja lá na Grécia Clássica ou neste solo pedregoso, colorido pelo sangue dos que lutam por Justiça. 
          Os tropeiros que cortam estas terras, levando mercadorias e notícias, são como os marinheiros que navegam pelo mundo, com suas ilusões de um amor em cada porto, mas, em geral, carregando passados de perdas, solidão, frustrações.  Vagueiam à procura de lugares não existentes nos vastos oceanos ou neste Sertão sem fim. 

          Fiquei contente com estas primeiras linhas, escritas pacientemente em folhas de papel almaço.  Jamais me acostumaria a uma Remington.  Como poderia pensar com aquele martelar de teclas?  Afinal sempre escrevi à mão, sejam lá receitas, anotações sobre pacientes, laudos médicos ou cartas pessoais. 
          Até que não é tão difícil assim escrever.  Apenas deixo fluir os sons da natureza, as vozes de alegrias e tristezas humanas. 


      Rua do Amparo, anos 40.  Acervo Teócrito Abritta.