Botswana, Foto T.Abritta, 2008

sábado, 13 de março de 2021

Vênus


Vênus ao entardecer na Ilha Grande, RJ.  Foto T.Abritta, 2007.

Nesta foto foi usada a técnica de “fill flash” (flash de preenchimento): o primeiro plano, no caso os galhos da vegetação são iluminados por um flash e depois o diafragma da máquina fotográfica fica aberto até registrar a tênue luz de Vênus emoldurada pela vegetação.



quarta-feira, 10 de março de 2021

Ruínas

 

Sempre vejo beleza nestas fotos de ruínas em meio à natureza que vai abraçando-as. Talvez seu apelo resida em terem o status de objetos encontrados – lascas fortuitas de um mundo que se foi

  Fotografia é a Arte de ver o que muitos não veem.  Nesta foto adentramos um pouco mais neste passado que teima em não ir embora: um poste que insiste em não tombar, números três-três-cinco gravados no reboco sobrevivente...podemos até pensar em mãos invisíveis fechando janelas inexistentes, escutar um girar de chaves na porta lateral. Passos se afastando, roçados secando, plantas murchando, num adeus de nunca mais, sem olhar para trás...

Enquanto um tijolo estiver de pé, teremos aqui as marcas de vidas vividas.

Por coincidência, 335 é o número do meu prédio. Um signo de sorte?

 

Pelos caminhos rurais de Minas, município Serra de Camapuã, 

próximo a Casa Grande.  Em 10/01/2021.  Foto Lena Dutra.

O Mar das Minas Gerais


          Das Gerais, a Terceira Margem do Rio (*) conhecemos.  O que falar da última margem de uma praia ancestral?

          Estas indagações foram respondidas pelo texto e ensaio fotográfico apresentado por Marilene Teixeira, Designer de Interiores e Paisagista, moradora de Ouro Branco, MG, mostrando detalhes das ruínas de antiga construção (Retiro do Seminário Redentorista de Congonhas) que aflorou no chamado Lago Soledade (V. Figuras 1 e 2) – um açude construído há quatro décadas próximo de Ouro Branco, MG, pela Açominas, vendida posteriormente para a Gerdau.  Com a severa seca que, em 2014, assolou o sudeste brasileiro, o nível das águas desta barragem baixou mais de dez metros. 

          Neste ensaio também foram documentadas as dificuldades para chegar a este local, bem como a presença de conchas marinhas, provavelmente relacionada a um braço de mar que cobria esta região há 500 milhões de anos e chegava até Januária, próximo da Bahia.

          Em 1996 fotografei também o que seria “outra margem deste lago ancestral”, com quartzitos, micas e provavelmente conchas marinhas, brilhando nas areias que afloram nas alturas de Ibitipoca, MG.  Com os movimentos da crosta terrestre ficaram no alto das montanhas, como provavelmente no alto da Serra de Ouro Branco. (V. Figura 3).

          O Lago Soledade fica administrativamente no distrito Miguel Burnier, Ouro Preto, mas geograficamente em frente à Serra de Ouro Branco e próximo à esta cidade.  Esta serra marca o início da cadeia do Espinhaço, região devastada pela extração de ferro.

          Ensaios fotográficos como este nos encantam, pois mostram a riqueza da Natureza e suas possibilidades, oferecendo-nos uma viagem no espaço-tempo através de milhões de anos, levando-nos à última margem do litoral do Mar das Minas Gerais.

          Estas emoções foram bem traduzidas pelas palavras impressionistas de Marilene:

 

          O passado agora refletido por um problema do presente que nem saberemos como será no futuro.

Figura 1 – Ruínas que afloram no Lago Soledade, Ouro Branco, MG. 

Foto Marilene Teixeira, outubro de 2014.


Figura 2 – Conchas marinhas no leito do Lago Soledade,

 Ouro Branco, MG.  Foto Marilene Teixeira, outubro de 2014.

 

Figura 3 – “Dunas” que afloram nas montanhas de Ibitipoca, MG. 

Foto T.Abritta, 1996.

 

Nota:

(*) Alusão ao conto de Guimarães Rosa com este título.


 



 

quinta-feira, 4 de março de 2021

Prosopopeias de Mané Garrincha

 

       
Com esta encantadora dedicatória recebi o livro Prosopopeias de Mané Garrincha, do escritor Claudio Aragão, onde a história deste herói mítico é contada em forma de Literatura de Cordel. 

          Aragão, a par de publicações em poesia e prosa, a partir de 1994, desenvolveu um projeto que ligou a Literatura de Cordel do seu Ceará com o futebol, surgindo, então, a coleção “Futebol Encantado”, com homenagens e história de vários clubes. 

          Graduado em Letras e Membro da Academia Brasileira de Cordel, com sede em uma simpática casa no bairro de Santa Teresa, no Rio de Janeiro, abordou também outros temas interessantes como Baco em versos: a literatura de Cordel visita o maravilhoso mundo do vinho, onde compartilha sua grande experiência como gerente de tradicionais restaurantes do Rio, como o piano-bar Antonino, o legendário bistrô francês Le Bic Fin e outros.

          Prosopopeias de Mané Garrincha é uma obra sofisticada em sua versificação, tendo 233 estrofes de dez versos cada (Décimas) e uma estrofe final com treze versos (acróstico com o nome do autor), totalizando 2 mil 343 versos.  Os versos Heroicos têm ictos nas sílabas 3/6/10.

          O livro tem apresentações de vários jornalistas e escritores, como Juca Kfouri e Ruy Castro, com sua capa ilustrada por uma xilogravura de Erivaldo Ferreira da Silva, um dos grandes mestres desta arte. 

          Parabéns ao meu amigo Claudio Aragão, pela obra e pelas lembranças da Copa de 1958, e o inesquecível 2x0 contra a Rússia, nos tempos que todos iam para a rua escutando os jogos no rádio.

 



segunda-feira, 19 de outubro de 2020

Telegrama


          Emoção na cidade.

          Chegou telegrama para Chico Brito.

          Que notícia ruim,

          que morte ou pesadelo

          avança para Chico Brito no papel dobrado?

 

          Nunca ninguém recebe telegrama

          que não seja de má sorte. Para isso

foi inventado.

 

          Lá vem o estafeta com rosto de Parca

          trazendo na mão a dor de Chico Brito.

          Não sopra a ninguém.

          Compete a Chico

          descolar as dobras

de seu infortúnio.

 

Telegrama telegrama telegrama

Em frente à casa de Chico o voejar murmure

de negras hipóteses confabuladas.

O estafeta bate à porta.

Aparece Chico, varado de sofrimento prévio.

 

Não lê imediatamente.

Carece de um copo d’água

e de uma cadeira.

Pálido, crava os olhos

nas letras mortais.

 

Queira aceitar efusivos cumprimentos passagem data natalícia espero merecer valioso apoio distinto correligionário minha reeleição deputado federal quinto distrito cordial abraço Atanágoras Falcão

 

Poema de Carlos Drummond de Andrade.

 

          O telegrama já foi o mais rápido meio de comunicação.  As letras e algarismos eram codificadas por pontos e traços, segundo o Código Morse e a mensagem transmitida por pulsos elétricos curtos (pontos) e longos (traços) através dos cabos telefônicos. 

          Para quem não conheceu, ver abaixo a imagem de um telegrama enviado “com urgência”.

Ah, “PT’ significa ponto.



quarta-feira, 14 de outubro de 2020

Manguezais


          Os manguezais marítimos são importantes ecossistemas, pois além de servirem de berçário para diversas espécies, são uma fonte de renda para comunidades locais. 

          Manguezais marítimos também têm uma importante função que é proteger as terras costeiras do impacto das marés altas, ainda mais com a subida dos oceanos que podemos observar em nosso litoral,

          Com a destruição irresponsável destes ecossistemas, várias espécies estão em processo de extinção, como, por exemplo, o peixe-boi marítimo, que não encontrando águas abrigadas, acabam tendo suas crias no meio do oceano, sendo perdidas e acabando em alguma praia. 

          Alguns têm sorte de serem recolhidos e levados para um centro de recuperação que tentará reintroduzi-los na vida selvagem. 

          Visitei dois destes centros, um na ilha de Itamaracá, em Pernambuco e outro no litoral de Alagoas.

          Nestes centros os filhotes são criados primeiramente em aquários, depois levados para um cercado na foz de um rio, para finalmente serem soltos.  É um processo difícil, pois estes animais tendem a serem domesticados, procurando a companhia das pessoas. 

          Na foto abaixo, mostramos um peixe-boi marítimo que já deveria ter partido para o mar, mas infelizmente tornou-se quase um animal doméstico. 

 Alagoas.  Foto T.Abritta, 2012.



domingo, 4 de outubro de 2020

Artefatos

 

“Os resultados mais correntes da conduta humana, os dados arqueológicos mais vulgares, podem chamar-se artefatos, coisas feitas ou desfeitas por uma deliberada ação humana.”

Gordon Childe.

 

          Olhando esta pedra na minha estante, lembro-me da Praia do Moçambique, na Ilha de Santa Catarina, onde estive há muitos anos. 

          A praia, de areias cristalinas, tinha uns oito quilômetros de extensão e margeava uma reserva de vegetação costeira praticamente impenetrável. 

          Depois de percorrer uma grande distância nesta praia, iniciei o retorno, pois a maré estava subindo e as ondas provocavam desabamentos na encosta, levando terra e vegetação, quando vi uma pedra que afundava na areia. Corri e consegui pegá-la.

          Seria esta pedra um artefato arqueológico, como sugere sua forma?  Tinha aproximadamente uns dezoito centímetros de comprimento e assemelhava-se – ver figura abaixo – a um percutor bem polido, ferramenta lítica usada, por exemplo, como batedor, mão de pilão e inúmeras outras finalidades.

          Pensando na frase do arqueólogo Gordon Childe, usada como epígrafe para este texto, fico especulando: seria esta “pedra”, o vestígio único de algum grupo que ocupou este litoral?  Afinal, o nível do mar era muito mais baixo e foi subindo, submergindo terras emersas ao longo dos anos, formando – aproximadamente há uns sete mil anos atrás – o litoral como hoje conhecemos.  Portanto, vestígios de povos que ocuparam este litoral podem estar submersos e inacessíveis. 

          Olho aquela pedra na minha estante e passo a considerá-la um solitário artefato, vestígio de povos perdidos no tempo. 


Percutor-Praia do Moçambique, Ilha de Santa Catarina, SC.