Botswana, Foto T.Abritta, 2008

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Técnicas Fotográficas


          Na composição de uma fotografia existem certos cuidados que podem tornar mais agradável sua leitura, já que normalmente ao olharmos a foto de uma paisagem, por exemplo, os elementos mais próximos ficam na parte de baixo da imagem, pois nosso olhar caminha destes detalhes próximos até o horizonte.  Outro aspecto importante é que no mundo ocidental a leitura é feita da esquerda para a direita. 
          Assim uma linha imaginária na fotografia, traçada do canto inferior esquerdo até o superior direito guia o nosso olhar pela imagem, ou seja, do que está perto até o longe e da esquerda para a direita.
          Na foto abaixo esta linha é marcada pela cor vermelha do sapato e vestido de uma das modelos involuntárias – que me perdoem pela apropriação de suas graciosas imagens –  e pelo vermelho de uma rosa.  Notem que a roseira ficou em um primeiro plano de modo a parecer maior e colorir fortemente a imagem com sua cor.


Foto T.Abritta, Paris, 2014.


sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Jequitinhonha



Aguardem para breve, Jequitinhonha.  Histórias de um Promotor contra as injustiças e violência em um Arraial no Vale do Jequitinhonha, Minas Gerais, entre os anos 1939 e 1946.
Reconstituição rigorosa do espírito e linguajar da época.

“Como é belo um livro que foi pensado para ser tomado nas mãos, na cama, até num barco ou onde não existem tomadas elétricas.  Até onde e quando qualquer bateria se descarregou.  Suporta marcadores e cantos dobrados, pode ser derrubado no chão, abandonado sobre o peito ou joelhos quando caímos no sono”.
De A memória vegetal e outros escritos sobre bibliofilia.
Humberto Eco, 2010.



quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Nas Alturas de Itatiaia

          Inicio o ano de 2010 diante das Montanhas de Itatiaia, parte alta do parque.
          Silêncio total.  A paisagem vazia leva-nos à introspecção.  Escaladores de alturas não são vistos – tempos chuvosos, pedras escorregadias.  Nem outras pessoas por aqui passeiam – caminhos pedregosos. 
          Chegando à Garganta do Registro; na parte mais alta do caminho para Itamonte, a quase mil e oitocentos metros de altura, entra-se no parque.  O jipe, mesmo com tração nas quatro rodas, salta, trepida e resvala no que, há muito, foi estrada.  Hoje, amontoado de pedras soltas, entulhadas ao acaso.  Caminho quase inexistente.  Apenas traços do rumo abandonado pelo homem.  A Natureza torna-se mais presente com o verde tentando cobrir o negrume dos sucessivos incêndios florestais e telhados abandonados nas ruínas das velhas construções.
          Após alguns quilômetros continuamos a pé.  Mas a caminhada foi breve.  As pernas já não são as mesmas de ontem.
          Esmagado entre o azul do céu e a aspereza das pedras, pensava: conheci os sete continentes.  Florestas, desertos, geleiras, savanas e vulcões.  Rios, lagos, oceanos.  Mas não chegarei mais às alturas de Itatiaia.  Ao longe fico a contemplar.  Passadas quatro décadas, apenas aqui cheguei.  Suas chaminés já venci.  Suas alturas já subi.  Suas rochas já senti.  O céu quase toquei.  Entre suas nuvens andei. 
          Tão longe repousa agora o Pico das Agulhas Negras.  Tão distante a Serra das Prateleiras com chaminés, paredões e vistas das regiões de Itatiaia e Resende dobrando-se no horizonte distante.  As gigantescas rochas com formas singulares, como a Pedra da Tartaruga, apenas no fundo da memória passada. 
          Sinto não ter caminhado por outras alturas.  Lá em cima ficaram os Himalaias, as neves do Kilimanjaro.  O Aconcágua derretendo-se ao sol.
          Até o Pico da Bandeira – ah, que esforço para chegar lá – deixou de ser nosso ponto culminante.  Até então perdido na imensidão Amazônica, descobriu-se o novo teto do Brasil, o Pico da Neblina, onde jamais pisarei.  Pouco mais ao norte, o Monte Roraima, agora para mim apenas a montanha que inspirou o Mundo Perdido de Conan Doyle. 

            Agora estão as montanhas estendidas
como cavalos azuis adormecidos.

          No silêncio, descanso para o penoso retorno.  Um calango atrai o olhar, mostrando caminhos a explorar.  Vidas humanas individuais são finitas.  A grandeza da Natureza é que traz sentimentos de eternidade. 
Agora, o pequeno réptil caminha sobre fungos, atravessa “florestas” de flores silvestres, sumindo no mimetismo e riqueza dos campos de altitude com suas folhas e pétalas refletindo infinitas cores de luz. 
Muito a explorar.  A descobrir. 
Alegro-me.  No fundo, aqui estou apenas para despedidas.  Aceno ao longe, muito longe, nesta jornada sentimental. 
          Tomarei outros rumos.  Seguirei o calango. 

            No horizonte, o céu é meditativo e suave;
            Parece que repousando no limite do tempo,

seus corações se reconciliaram.  

Foto T.Abritta.

Nota:
Fragmentos intertextuais da poesia Montanhas Ao Meio-Dia, de Charles Edward Eaton, traduzida por Jorge de Lima.

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Escrevendo Errado em Páginas Certas.


A Constituição dos Estados Unidos, por exemplo, tem apenas os princípios fundamentais de uma Democracia escritos em  uma única página.  A brasileira, mistura estes princípios fundamentais com os secundários.  Por exemplo, a transparência, igualdade de direitos, liberdade de opinião e outros, deveriam, quando ameaçados, ser mais importantes do que o foro privilegiado, que existe unicamente para garantir estes princípios fundamentais.  Mas o STF não pensa assim na sua interpretação constitucional.  Sempre atua como uma corte de defesa do "sistema" e do Poder, e não para garantir o interesse social.  Assim, simplesmente, nos últimos 20 anos deixaram prescrever uns 500 processos e atualmente já acumulam quase 200 outros na vergonhosa fila da prescrição.
Na prática esta Corte funciona apenas como uma repartição para carimbar certificados de ficha limpa para corruptos.

Como curiosidade, em 2014 uma das capas da revista Rolling Stone apresentou a atriz Julia Louis-Dreyfus mostrando a Constituição dos Estados Unidos escrita em suas costas (ver figuras e link abaixo).
Se fosse a Constituição da República Federativa do Brasil, nem que escrevesse-mos também em seu "derrière", descendo pelas pernas, isto seria possível, mesmo não faltando escribas para esta árdua  tarefa.






terça-feira, 20 de setembro de 2016

Colossos de Menon


          Na Grécia Clássica os mortos eram sepultados de uma forma ritual, criando-se uma réplica do falecido na forma de um corpo insubstancial chamado Êidolon.  Para aqueles que morriam longe da pátria, dos parentes ou quando o corpo não era encontrado, construía-se um túmulo vazio com uma estátua ao lado, o Kolossós.  Este Colosso, como o próprio morto, é um duplo do vivo, atraindo a Psiquwe vagante transformando o morto em Êidolon.


Figura 1 - Estátuas representando Amenófis III (1417-1379 AC) - Tebas, Egito.  Os gregos da antiguidade clássica diziam ser um Kolossós do mítico rei Menon, desaparecido na Guerra de Troia e até hoje estes gigantes são conhecidas como Colossos de Menon. Foto T.Abritta, 1990.

          Estas estátuas foram descritas por Heródoto, Estrabão e muitos outros ilustres viajantes.  Na antiguidade, uma das estátuas emitia um triste lamento ao amanhecer e ao anoitecer (devido provavelmente às variações de temperatura em uma das fendas causadas pelos terremotos).  Mas tal lamento foi atribuído a uma saudação à deusa Aurora – a deusa dos dedos rosa, que abre a cortina do céu no amanhecer –, mãe de Menon, que obteve a dádiva de escutar a voz de seu filho, Rei do Egito, desaparecido na guerra de Troia.
          Depois de obras de restauração feitas pelo Imperador Romano Septimo Severo (193-211 DC.), os gemidos nunca mais foram escutados.

          Em certo sentido a fotografia funciona como um duplo do fotografado, um singelo Kolossós em papel.  Por outro lado, a sua deterioração física lembra-nos não da transitoriedade da vida como da fragilidade e constante transformação do mundo material.  Uma foto antiga, mesmo deteriorada e de baixa qualidade em sua concepção, sempre será considerada uma preciosidade ou obra de arte, pois é vista como um registro arqueológico, uma ruína que sobreviveu a uma deterioração temporal.  Esta ponte entre História, Arqueologia e Fotografia fica mais clara comparando-se a visão mais técnica de um arqueólogo com o olhar poético de uma escritora.

“Os resultados mais correntes da conduta humana, os dados arqueológicos mais vulgares, podem chamar-se artefatos, coisas feitas ou desfeitas por uma deliberada ação humana”, Gordon Childe.

“As fotos são, é claro, artefatos. Mas seu apelo reside em também parecerem, em um mundo atulhado de relíquias fotográficas, ter o status de objetos encontrados – lascas fortuitas do mundo, Susan Sontag.



domingo, 14 de agosto de 2016

Jequitinhonha: A Título de Posfácio


          “Todos sentiram sua partida, doutor.  Foram sete anos por aqui e já tem quase vinte anos.  Vou chamar seu Salvador mais seu Rocha pra saberem das novidades.”
          “Parece até que foi ontem.  Todo povo comentando: o novo promotor tranca a porta de casa durante o dia.  Uma desfeita para a cidade – gente ruim.  Mas quando deu ordens pra passar as chaves na cadeia, gostaram.”
          “Pudera, fazendeiro assassino, compadre do Coronel, trancado igual preso!” 
          “Cabo Chico Diabo morreu quieto.  Diziam que nestes sete anos perdeu o gosto da maldade.  O Coronel preferiu a reforma e partiu daqui magoado com seus soldados: viraram maricas, não cumprem mais as ordens.
          “E o negrinho?”
          “Assim que deu baixa do Exército, veio da capital e foi morar no sítio herdado do padrasto.”
          “O padrasto?  Uê, o doutor não mandou pro manicômio judiciário?  Logo logo deram jeito no coisa ruim!”

          E lá foram, embornais e armas nas costas, mirrado gadinho.

          Então, este é o Sertão?  Não sei, ninguém sabe. 
A hora é de despedidas.  Simplesmente observe o cair da tarde aqui do Cruzeiro.  O vale sumindo, nuvens escurecendo, primeiras luzes acendendo.  Lanternas vermelhas brilhando no Beco do Mota.  Mais tarde, ruas encantadas: serenatas.
          Pela manhã, pessoas pra lá, pra cá.  A gritaria no Mercado, a movimentação dos compradores de pedras nas esquinas.  Gatos espreguiçando nos beirais.
Hoje ainda assim. 
Amanhã, só os sinos saberão. 


Diamantina, MG.  Foto T.Abritta, 1965.



Diamantina, MG.  Vista do Alto do Cruzeiro.   Foto T.Abritta, 1965.

Teócrito Abritta, 2016.


sábado, 13 de agosto de 2016

Jequitinhonha, décimo primeiro capítulo: Nesta Fria e Chuvosa Manhã


        ...aqui em São Paulo, andava de um lado para outro.  Deslizava os dedos pelas lombadas dos livros nas estantes.  A maioria já lida.  Outros, apenas conhecidos por referência, lá repousavam.  A Máquina do Tempo de HG Wells ao lado de livros sobre História.  Difícil entender meus critérios na arrumação das obras por assunto.  Lá no canto, Grande Sertão Veredas.  Abrindo numa página qualquer, a voz de Riobaldo:

          O senhor tolere, isto é o sertão.  Uns querem que não seja: que situado sertão é por campos-gerais a fora a dentro, eles dizem, fim de rumo, terras altas, demais do Urucúia, Toleima.  Para os de Corinto e de Curvelo, então, o aqui não é dito sertão?

          Como uma viagem no tempo, as discussões literárias na casa do Juiz:

          Mas este escritor está mais para Cientista.  Percorre estas terras anotando nomes de plantas, rios, animais...
          Como pode um diplomata tão erudito passar dias escutando conversas de gente boba da roça?

          Ora, mas sete anos antes da Semana de Arte Moderna de 1922, os jornais falavam o mesmo de Afonso Arinos: “nas entradas no Sertão, a que se entregava periodicamente, tinha o cuidado de evitar a gafe, e ele dispensava seus elegantíssimos ternos citadinos para esfarpelar-se à moda sertaneja, sem esquecer coturnos, chapelão de couro e roupa de brim”.

          Mas o roceiro é contemplativo. Sabe admirar a Natureza.  Sabe cantar a beleza feminina: fulana é forte, bonitona e sacudida...

          O que seria da Vida sem estas belezuras, as éguas, o boi no pasto e as muié?

          Todos riram e um gole de cachaça para brindar

          Fechei os olhos, as lembranças das minhas incursões médicas por este mundão de Deus.  Tratava desde tosse-de-cachorro, bicho-de-pé e até doenças graves.

          Cheguei a escutar as cantorias, que de longe anunciavam a chegada em alegres comunidades...

Bambu, quero ver quebrar
Êêêê bambu, cê quebra já
Cê quebra devagarinho
Êêêê bambu,
Prá não machucar

Roda morena, morena torna rodar
Nunca vi em quem tem amor
Despedida sem chorar

         Juntei toda a papelada, numerei as páginas e pacientemente encadernei costurando com uma agulha de sapateiro.
          E assim termino esta atrevida incursão literária.
          Como num amanhecer, as estrelas abandonam o céu, os vaga-lumes vão se apagando medrosos e ocultando-se no segredo da vegetação, enquanto seus derradeiros lampejos na mata se misturam ao clarão do dia nascente, formando uma luz turva, indecisa, incolor (*).


(*) De Canaã Graça Aranha.


 Avenida Rio Branco, Rio de Janeiro, anos 50.