Botswana, Foto T.Abritta, 2008

segunda-feira, 27 de junho de 2016

Curaçau Blue


Azul são os mares os céus
veludosas borboletas.

Azul é a Divina cor de Frá Angélico
o Allegro Brioso do lápis lazúli a encantar
o licor para o Amor festejar.

Simplesmente Azul.


Simplesmente Azul.  Parque Nacional do Iguaçu, Paraná.
Foto T.Abritta, 2005.




domingo, 12 de junho de 2016

Relógio de Algibeira


          Este é um relógio especial, pois comemora a vitória da União Soviética contra os Nazistas na campanha de 1941-1945, a par da perda de quarenta milhões de vidas, apenas na União Soviética.
          Mas escrever o quê?
          Escrever que após a reunificação da Alemanha, com a retirada das tropas russas de seu território, muitos soldados desertaram e para sobreviver tiveram que vender até suas medalhas?
          Escrever que a maioria das nações envolvidas na Segunda Guerra Mundial promovem sistematicamente guerras, mortes e atentados contra civis por este mundo afora?

      


   




          Melhor ficar apenas com o Tic Tac deste maravilhoso Relógio de Algibeira!




sábado, 11 de junho de 2016

Relógio Antigo


Nada melhor do que um relógio antigo
pra quem cultive a graça das demoras.
Um relógio que, por absurdo e ambíguo
marque mais os outrora que os agoras...

Fragmento do poema Relógio de Pêndulo, Cassiano Ricardo.


Foto T.Abritta.  Praga, 2002.




sexta-feira, 10 de junho de 2016

Relógio de Sol



De todas as minhas façanhas
a que me dói mais lentamente
é sentir nas minhas entranhas
o meu coração arbitrário
girando em sentido contrário
à parábola do poente...

Paulo Mendes Campos


Relógio de Sol.  Adro da Igreja de Santo Antônio, Tiradentes, MG.
Foto T.Abritta, 2011.

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Roça Chique, Uai


          Nestes últimos feriados decidi afastar-me desta vida trepidante no Rio de Janeiro.  Em busca de refúgio, abri um enorme mapa do Brasil, ziguezagueando os olhos nesta procura.  Acabei atravessando a fronteira mineira, encantando-me com os nomes das cidades e povoadosCada lugar era um convite: Borda da Mata, Dores de Campo, Retiro da Onça, Formiga, Sereno, nomes que soavam como apelo à preocupação ambiental.  Outros apelavam para a poesia: Estrela Dalva, Espera Feliz, Monte Sião e Mar de Espanha, para não falar em Milho Verde, Luminárias, Trinta Réis...  Seria decisão difícil, até surgir a pequenina Catas Altas da Noruega, na região do ciclo do ouro colonial. 
          Esta cidade me lembrou uma velha história familiar, de que a minha avó, pelo lado paterno, teria ascendência germânicaEstudos genealógicos desmentiram a versão, mas mostraram que provavelmente seus ascendentes vieram de Catas Altas da Noruega, daí a confusão
          Os valentes desbravadores portugueses e paulistas quando não nomeavam um lugar com o nome de santo, batizavam-no com o nome de uma de suas características.  O termo “Noruega”, portanto, nada tem a ver com os nórdicos e sim com o frio desta região.  Nesta geografia dos caçadores de ouro, uma encosta meridional de montanha que recebe pouco sol, sendo muito fria, é chamada de noruega.  Monteiro Lobato, no conto Velha Praga, fala também emgrota noruega” como um vale frio e pouco ensolarado
          Depois destas digressões histórico-geográficas iniciei a viagem para este lugar de nome tão singular.  No caminho ia refletindo que em Minas até as doenças graves eram de fácil cura, como, por exemplo, aquela em que uma criança ficava “aguadaquando lhe negavam guloseimas e iguarias.  O tratamento era simples: bastava banquetear alguns dias nas casas dos vizinhos e a criança se recuperava, para o conforto dos paisPor outro lado, havia os “gaveteirosque faziam suas refeições em grande mesa sem toalha, qualquer paninho ou louça, nada além do prato-feito e talheres.  Assim que algum vizinho anunciava: ô de casa, pratos, garfos e facas eram guardados rapidamente em grandes gavetas sob a mesa; por milagre aparecia um baralho, e a resposta era: senta cumpadre, vem jogar um baralhinho...  A turma da Zona da Mata Mineira diz que os gaveteiros são de Divinópolis.  Mas certamente em Divinópolis nomearão outra cidadeMas o certo é que sempre encontramos em velhas fazendas e casarões mineiros aquelas mesas típicas dos gaveteiros
          Por distração ou manhas do destino, acabei entrando em uma estradinha desconhecida, desviando-me do caminho traçado anteriormente.  Isto a apenas poucos quilômetros da lendária Catas Altas da Noruega. 


Catas Altas da Noruega.  Foto da página da cidade.

          Em um asfalto impecável o carro rodava, serpenteando entre verdes montanhas, até atingir a altitude de mais de mil metros, onde uma placa avisava que estávamos no cume da Serra do Espinhaço, saindo do lado em que as águas alimentavam a bacia do Rio São Francisco para entrarmos no lado doce da serra – a bacia do Rio DoceMais adiante, placas com muito humor alertavam: “Cuidado, Formigas na Pista” e acabava o asfalto, com o piso agora feito de pedras tipo pé-de-molequeera um corredor ecológico para a passagem dos animais nas zonas de matas mais fechadas. 
          Depois foi um desfile de belas fazendas, todas restauradas com esmero, nesta região de agricultura e pecuária que se desenvolveu para alimentar os faiscadores de ouro da região de Mariana e Ouro PretoEste desfile começou com a Fazenda da Pedra, prosseguindo com a Santa Marina, do Tanque e Fonte Limpa, terminando em Santana dos Montes.  O casario da rua principal estava totalmente restaurado, abençoado por sua Igreja dominando a paisagem no ponto mais alto.  No final de tantas surpresas, recuperamos o fôlego tomando cafezinho com broa de milho no Casarão dos Montes, onde todos se reuniam para uma prosa antes do anoitecer. 
Como os antigos tropeiros, pousamos na Santa Marina para melhor explorar a região.  Lá conhecemos um grande restaurador que, com sua esposa e filhas, deixou como novas três fazendas históricas, salvando também o casarão de uma quarta que, de tão velho e abandonado, tinha ruídoCada pedra, esteio, porta ou janela foi numerada e tudo remontado ao lado da primitiva casa grande da Fazenda Santa Marina
          Foram dias memoráveis nesta cidade, onde a História parecia sair do passado para nos visitar.  A preservação ambiental é levada a sério e a cultura local valorizada.  Conhecemos também Cientistas Sociais que não estudam, como também fazem a História, trabalhando em projetos de interesse comunitário, como oficinas de luthiers e conjuntos de violas caipiras, além das fazendeiras “encantadas”: havia aquela, com sorriso bonito, olhos expressivos, fala suave, que ia levando seu rebanho para o mundo da poesia e literatura, declamando: estava ela a olhar/ debruçada a janela.  Seus olhos verdes faziam par/ com o verde das folhas das hortênsias...  Outra tinha sido seduzida pelos lobos guarás, que transformaram sua propriedade em verdadeira escola, onde filhotes treinavam a arte da caça devorando galinhas.  Sempre sorrindo, falava dos tatus que comiam suas mandiocas e das saracuras que usavam a horta para banquetes. 
          Ao nos despedirmos desta cidade, cruzamos com um violonista itinerante que, com sua arte musical, chegava aos lugares mais afastados e remotos, tal um mariachi da vida rural brasileira.  Levamos também a terna lembrança da senhora, moradora da praça principal de Santana dos Montes, que acordava de madrugada, espiava pela gelosia e, se tudo estivesse deserto e silencioso, girava a tramela e lá ia, enrolada em um xale, apagar as luzes da praça, contribuindo para amenizar o uso desenfreado dos recursos naturaisAfinal de contas, era uma roça chique, uai
          Acabei não conhecendo os perigosos e fatais golpes de ar das gélidas montanhas mineiras da Noruega.  Mas quem sabe, outro dia...

Publicado em maio de 2009 no Montbläat e no livro




terça-feira, 17 de maio de 2016

O QUADRO NEGRO


O Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial, associado à Fundação Armando Álvares Penteado, em São Paulo, edita um periódico, o Braudel Papers.  Não sei por que o papers, em inglês, já que Braudel era francês, mas vá lá. O fato é que a publicação merece ser lida. No seu último número, apresenta uma aluna pobre, de uma escola da periferia de São Paulo, em Capão Redondo, um desses lugares miseráveis e violentos, onde o poder público chega apenas marginalmente, abandonando e oprimindo, e onde a maioria dos jovens tem como causa mortis um assassinato.  Sandra tem 17 anos e é desses diamantes brutos que o Brasil insiste em produzir, contra todas as condições, e que em sua maioria jamais serão lapidados e se perderão cedo na vida, devido à cruel falta de oportunidade.  Sandra teve sorte, foi convidada a trabalhar no Instituto Braudel.  Trabalha de dia e estuda à noite, como centena de milhares de jovens em todo o Brasil.  A escola de Sandra é típica escola de periferia da cidade mais rica do Brasil, São Paulo.  Ela foi convidada pelo Instituto a fazer um diário de seu ano escolar. O relato é devastador. Realidade em prosa de algo que os governos enxergam apenas em números.  Para as estatísticas, Sandra faz parte das 96% das crianças brasileiras que estão na escola.  Para Sandra, a escola é um lugar que fica a anos-luz do que se poderia esperar de uma instituição de ensino.  Apesar de tudo, mesmo no inferno, há quem tente melhorar, há quem busque o conhecimento, mesmo em meio a tanto abandono e desfavorecimento.  Seu diário mereceria publicação em livro.  É a visão pungente, sem retoques, de como o Brasil trata a maioria de seus filhos.  Mostrarei apenas o primeiro dia do diário, que em si já é uma crônica escrita com estilo enxuto, objetivo, sem adjetivos, que orgulharia a maioria dos jornalistas que conheço (e que não conheço também

“Quarta-feira, 14 de fevereiro.
As aulas começaram há seis dias, só que até agora nenhuma
matéria foi dada.  Como o horário das aulas ainda não foi definido, os alunos ficam nos corredores, até às 19h20, querendo saber para que salas irão.  Outros preferem ficar do lado de fora da escola, escutando o som que vem de um carro estacionado.  Na sala de português não há iluminação suficiente e há goteiras nos corredores.  Quando as aulas começam, os alunos reclamam muito quando os professores usam a lousa.
Por enquanto, ainda estão fazendo simplesmente revisão.  A professora de português, Marina, passou um texto sobre narração que encheu a lousa.  Depois da primeira aula resolvi sentar na parte do fundo.  Dois alunos sentados atrás de mim conversavam sobre armas:
- Seu pai ainda tá com aquele calibre 12?
- Tá sim, quer comprar?
- Quanto ele quer?
- R$ 1.500.
- Você tá louco! E aquela arma da polícia, que atira bolinha de borracha, que eu não sei o nome, quanto ele quer?
- R$ 350.
No início da conversa, pensei que fosse brincadeira. Sendo eu nova na sala, talvez quisessem me impressionar. Não tenho certeza.  Quando a professora de química disse que não ia deixar sair da sala para fumar, os meninos disseram: “Aqui ninguém fuma, só cheira!”
Quando o sinal bateu para a última aula fui até o orelhão que instalaram na escola.  Alguém já tinha quebrado.  Às 22h fui embora.  Não tinha luz na rua.”

Fritz Utzeri, Jornal do Brasil de 24/04/02)


terça-feira, 3 de maio de 2016

SOS Ilha Grande


          Diante da depredação ambiental, tolerada pelos nossos governantes em busca do voto irresponsável, é surpreendente que a menos de duzentos quilômetros das duas maiores cidades brasileiras, Rio de Janeiro e São Paulo, sobreviva um paraíso da natureza que é a Ilha Grande.  Esta ilha conheceu o ciclo da cana-de-açúcar, do café e sediou mais de vinte indústrias de processamento de sardinhasDurante cem anos abrigou instituições carcerárias, até que em 1994 o Presídio de Dois Rios foi desativado e em seu lugar foi criado um centro de pesquisas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).  Paradoxalmente a existência do presídio foi um fator de preservação desta ilha, com o esvaziamento das atividades econômicas e o afastamento da especulação imobiliáriaHoje a Ilha Grande tem 90% de sua área coberta de florestas, sendo que aproximadamente 30% são primárias e o restante secundárias, com estados de regeneração variáveis
          Com a desativação de grandes fazendas e indústrias, os caiçaras – uma mistura étnica entre portugueses, índios e negros – continuaram as suas culturas de subsistência, onde faziam a rotatividade da terra e suas atividades pesqueiras.  É interessante observar que mesmo nas matas secundárias, ainda podemos observar antigas figueiras da vegetação primária, pois estas árvores nunca eram abatidas pelos caiçaras por serem consideradas sagradas.  No Saco do Céu, bem a beira mar, tem um belo exemplar de uma destas árvores centenárias. 
          A par de suas florestas, a Ilha Grande possui um fabuloso patrimônio marítimo, com praias voltadas para o alto mar menos habitadas e mais preservadas, que de maio a setembro, no chamado inverno, o mar é muito violento, dificultando o acesso marítimo.  As praias voltadas para o continente são mais povoadas, mas mesmo assim razoavelmente conservadas.  O grau de pureza das águas de algumas praias pode ser constatado pela pujança da vida marinha, como estrelas do mar e tartarugas que podem ser vistas em quantidade no Saco do Céu e na praia de Manguariqueçaba.  Outro grande espetáculo pode ser visto em um passeio noturno de barco pela Enseada das Estrelas onde, nas noites escuras, todo o trajeto do barco fica iluminado e os peixes brilham, devido ao fenômeno conhecido como ardentia – com a agitação mecânica da água, dissolvemos oxigênio e os plânctons emitem luz em um processo físico de fosforescência
          Mas a Ilha Grande não é naturezaEm suas praias temos o registro de povos que aqui viveram há mais de 3.000 anos e afiavam as suas facas e machados de pedra nas rochas, em verdadeiras oficinas líticas.  Estes amoladores-polidores estão espalhados por diversos rochedos, sob a forma de sulcos, testemunhando as atividades pesqueiras destes antepassados
          Este patrimônio natural e cultural está, do ponto de vista formal, bem protegidoToda a Ilha Grande faz parte de uma Área de Proteção Ambiental que está dividida em reservas específicas como: Parque Estadual da Ilha Grande, Parque Estadual Marinho do Aventureiro e Reserva Biológica Estadual da Praia do Sul.  A ilha é bem servida de serviços públicos, tendo um bom posto de saúde, serviços de defesa civil, posto policial, batalhão florestal e fiscalização marítima da capitania dos portosMas em um país em que a cultura e a ciência são desprezadas e atividade cultural é posar para fotos em estréias no Canecão, devemos estar ultra-atentos, ainda mais com esta história de eleger a Ilha Grande como uma das maravilhas do Rio
          A maior ameaça à Ilha Grande é a especulação imobiliária e a superpopulaçãoNos meses de verão podemos ver nas praias do Abraão e Abraãozinho, o óleo que vaza das embarcações e a gordura do esgoto que se infiltra pela areia e acaba no mar.  É fundamental uma maior fiscalização nos motores dos barcos, estabelecer uma ocupação máxima para a ilha, com um limite das construções horizontais ou verticais.  É necessário também ter um sistema de tratamento de esgotos, que alguns rios ficam totalmente poluídos com o excessivo uso das fossas sanitárias, transformando belíssimas praias em cloacas fétidas. 
          Com o aumento do turismo e dos lucros, muitos moradores nativos vendem as suas pequenas casas e abrigos de pesca, em geral erguidas sobre a areia da praia, para construção de pousadas que avançam sobre o mar, com aterros e pilastras de concreto sobre as pedras.  Na praia do Abraãozinho podemos observar um destes atentados, onde a praia foi aterrada e uma das pedras com as marcas dos amoladores-polidores de mais de 3.000 anos bem danificada.  Isto é mostrado nas figuras abaixo.  Na figura 1 mostramos este fato, com a histórica pedra em primeiro plano e na figura 2 detalhes desta oficina lítica, com os sulcos onde foram amolados e polidos machados e facas de pedra
          Esperamos que estas palavras, de alguma maneira, alertem os brasileiros interessados não em nosso meio ambiente como em nossa cultura, bem como cheguem aos pesquisadores que fizeram os estudos originais sobre os primeiros indícios de presença humana na Ilha GrandeAssim como os sulcos nas pedras foram interpretados, pode ser que alguém salve estas verdadeiras mensagens escritas na pedrapelo menos 3.000 anos.


Figura 1 – Atentado ao passado histórico brasileiro na praia do Abraãozinho.


Figura 2 – Detalhes dos sulcos onde eram amolados machados e facas de pedra pelos primitivos habitantes da Ilha Grande.

Leituras sugeridas: Pré-História da Terra Brasilis, Org. Maria Cristina Tenório – Ed. UFRJ, 1999; Ilha Grande: Do Sambaqui ao Turismo, Org. Rosane Manhães Prado – EdUERJ, 2006.

Publicado no Montbläat.
Rio de Janeiro, 22 de agosto de 2007.
Teócrito Abritta