Botswana, Foto T.Abritta, 2008

quinta-feira, 9 de abril de 2015

na praia da noite escura


Não sei se sonhando
talvez insone pensando
Vênus deitava no horizonte.

As Três-Marias tão longe
no Zênite luziam.
Coração-Corpo-Alma.

Nas areias, uma fenda de espumas
em beijo molhado
quente brisa suspirou.

E o oceano estremeceu
rútilo rubro céu endureceu
no leito das verdes relvas de areias.


  
Mar Absoluto.  Óleo sobre tela, Humberto Carneiro Ribeiro, 2004.
Foto T.Abritta, 2005.

domingo, 5 de abril de 2015

Elegia a um Sapateiro

O Sapateiro. Foto T.Abritta, Rio de Janeiro, 1970.
Original em cromo colorido, restaurado fisicamente e digitalizado.

Diziam sapateiro, que as quatro letras faziam tipógrafo sagaz.
Pelo solo brasileiro vagou, de Pernambuco ao Rio de Janeiro.
O Livro da Sabedoria divulgou.

Maltratado, judiado, esquecido, definhou.
O fósforo só alumiou, o fogo levou.

Da locomotiva Salgado apitou.
João Capenga saudou.
Cachimbo a todos enfumaçou.

Neste final, apenas sonhou.
Salgado, lá do Balança, com seu boné de maquinista.
João Capenga, do Saneamento, o rouco apito da América Fabril.

O aroma de mama-cadela no fumo do Cachimbo.

Do Italiano, o trovão da Zündapp,
a doçura de sua música...bella ciao ciao ciao.

De seu Pernambuco,
o telizinho de Seu Ambrósio...

O cheiro de tinta gravando palavras:

          ...mal podemos conhecer o que há na Terra, e com muito custo compreender o que está ao alcance de nossas mãos; quem, portanto, investigará o que há nos céus?

Notas:
-As quatro letras: o b e d; depois o p e q.  Como tinham formas parecidas, confundiam os tipógrafos que trabalhavam com tipos móveis e tinham que montar as letras invertidas na placa de impressão.
-Telizinho: pequeno ateliê gráfico composto de prensa manual e caixa de tipos.
-Podemos ver um exemplar de uma destas prensas na Academia
  Brasileira de Literatura de Cordel, Rua Leopoldo Fróes, 37 - Santa Teresa,
  Rio de Janeiro-RJ.
-Zündapp: marca de motocicleta fabricada na Alemanha.
- Música citada: Bella Ciao, versão dos Partigianos que lutavam contra os
  Fascistas na Segunda Guerra Mundial.
  Escutar música no link: https://www.youtube.com/watch?v=4CI3lhyNKfo


domingo, 29 de março de 2015

AINDA (AÚN)


Ainda (Aún)


Vulcão Osorno. Araucânia, Chile. Foto T.Abritta, janeiro de 2004.


Harpa de Osorno sob os vulcões!
Soam as cordas escuras
Arrancadas ao bosque.
Olha-te no espelho de madeira!
Consome-te
na mais poderosa
fragrância de outono
quando os ramos deixam
cair folha por folha
um planeta amarelo
e sobe sangue para que os vulcões
preparem fogo cada dia.

                                       Poema XI de Ainda (Aún)

          “Aún de Araucânia, onde um dia cresceu para ser amplo / como a terra ou mais extenso ainda ... “
          “Ainda de o sangue ainda sobre as rochas ... ainda no azeite gelado.”

Tradução de Olga Savary

segunda-feira, 2 de março de 2015

Nas Alturas de Itatiaia


          Inicio o ano de 2010 diante das Montanhas de Itatiaia, na parte alta do parque.
          Silêncio total.  A paisagem vazia leva-nos à introspecção.  Escaladores de alturas não são vistos – tempos chuvosos, pedras escorregadias.  Nem outras pessoas por aqui passeiam – caminhos pedregosos. 
          Chegando à Garganta do Registro; na parte mais alta do caminho para Itamonte, a quase mil e oitocentos metros de altura, entra-se no parque.  O jipe, mesmo com tração nas quatro rodas, salta, trepida e resvala no que, há muito, foi estrada.  Hoje, amontoado de pedras soltas, entulhadas ao acaso.  Caminho quase inexistente.  Apenas traços do rumo abandonado pelo homem.  A Natureza torna-se mais presente com o verde tentando cobrir o negrume dos sucessivos incêndios florestais e telhados abandonados nas ruínas das velhas construções.
          Após alguns quilômetros continuamos a pé.  Mas a caminhada foi breve.  As pernas já não são as mesmas de ontem.
          Esmagado entre o azul do céu e a aspereza das pedras, pensava: conheci os sete continentes.  Florestas, desertos, geleiras, savanas e vulcões.  Rios, lagos, oceanos.  Mas não chegarei mais às alturas de Itatiaia.  Ao longe fico a contemplar.  Passadas quatro décadas, apenas aqui cheguei.  Suas chaminés já venci.  Suas alturas já subi.  Suas rochas já senti.  O céu quase toquei.  Entre suas nuvens andei. 
          Tão longe repousa agora o Pico das Agulhas Negras.  Tão distante a Serra das Prateleiras com chaminés, paredões e vistas das regiões de Itatiaia e Resende dobrando-se no horizonte distante.  As gigantescas rochas com formas singulares, como a Pedra da Tartaruga, apenas no fundo da memória passada. 
          Sinto não ter caminhado por outras alturas.  Lá em cima ficaram os Himalaias, as neves do Kilimanjaro.  O Aconcágua derretendo-se ao sol.
          Até o Pico da Bandeira – ah, que esforço pra chegar lá – deixou de ser nosso ponto culminante.  Até então perdido na imensidão Amazônica, descobriu-se o novo teto do Brasil, o Pico da Neblina, onde jamais pisarei.  Pouco mais ao norte, o Monte Roraima, agora para mim apenas a montanha que inspirou o Mundo Perdido de Conan Doyle. 


            Agora estão as montanhas estendidas
como cavalos azuis adormecidos.

          No silêncio, descanso para o penoso retorno.  Um calango atrai o olhar, mostrando caminhos a explorar.  Vidas humanas individuais são finitas.  A grandeza da Natureza é que traz sentimentos de eternidade. 
Agora, o pequeno réptil caminha sobre fungos, atravessa “florestas” de flores silvestres, sumindo no mimetismo e riqueza dos campos de altitude com suas folhas e pétalas refletindo infinitas cores de luz. 
Muito a explorar.  A descobrir. 
Alegro-me.  No fundo, aqui estou apenas para despedidas.  Aceno ao longe, muito longe, nesta jornada sentimental. 
          Tomarei outros rumos.  Seguirei o calango. 

            No horizonte, o céu é meditativo e suave;
            Parece que repousando no limite do tempo,
seus corações se reconciliaram. 


Nota:

Fragmentos intertextuais da poesia Montanhas Ao Meio-Dia, de Charles Edward Eaton, traduzida por Jorge de Lima.




Iguana. Chichén-Itzá, México. Foto T.Abritta, 2006.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Assassinos da Natureza.


          Agora chegamos ao ponto doloroso desta trilogia de crônicas que estamos apresentando, falando sobre nossa Natureza roubada e assassinada pela Nova Direita Brasileira, que, em sua busca do voto fácil, predou nosso país destruíu o Cerrado e a Amazônia, agravando as consequências das mudanças climáticas, acabando com nossas águas, nossas energias...
  
O Bom do Brasil

          Neste final de ano vamos esquecer os execráveis da política brasileira e continuar uma daquelas viagens reais ou imaginárias, passadas, presentes ou futuras.  Viajaremos pelo Brasil, desfrutando o que temos de bom, pouco conhecido ou inusitado.
          Começaremos por Porto Velho, em Rondônia, visitando as corredeiras de Santo Antônio, no rio Madeira (ver figura), antes que desapareçam com os projetos hidrelétricos para esta região, lembrando-nos que estas corredeiras eram o primeiro dos obstáculos que impediam a navegabilidade deste rio, resultando na construção da ferrovia Madeira-Mamoré.


Corredeiras de Santo AntônioRio Madeira, Porto Velho.
Foto Teócrito Abritta, 2005.

          Nestes tempos em que o próprio Ministério do Meio Ambiente vende as nossas florestas, imagine, após navegar-mos durante horas em manguezais infinitos, chegar a um verdadeiro éden com pássaros e animais maravilhosos, dunas e lagoas de uma placidez única.  Esta é a Ilha do Caju no Delta do Parnaíba, Maranhão, que considero um lugar singular no Brasil, felizmente muito bem preservada graças aos esforços de sua proprietáriaSem nenhum exagero, nesta época em que se fazem listas para tudo, eu certamente colocaria a Ilha do Caju entre as dez maiores belezas naturais da face da Terra.

Montbläat, Rio de Janeiro, 23 de dezembro de 2007.
Teócrito Abritta



Culinária Brasileira


          Seguindo o roteiro da postagem abaixo, outra grande beleza brasileira é a nossa culinária, com os seus sabores exóticos temperados pelos estranhos nomes de seus pratos que refletem a integração dos africanos, índios, caboclos e portugueses.  Assim, que tal saborear no Ceará uma lagosta ao mocororó, acompanhada de farofa e purê de abóbora e de sobremesa banana flambada com sorvete de manjericãoPara os não iniciados, mocororó é um vinho de caju feito a partir do bagaço do mesmo.
          E que tal, no sertão da Bahia, um cortado de palma com godó?  O cortado nada mais é do que o cacto xiquexique sem os espinhos, que é comido nas secas severas pelo gado e até pelos homens.  Mas  em épocas mais amenas pode ser saboreado como prato típico.  O godó é simplesmente carne seca cozida com banana verde.  Uma delícia!
           Indo ao Pantanal e passando por Cuiabá, não deixe de comer uma mujica de pintado (peixe ensopado com aipim) e quem sabe um furrundu de sobremesa (doce de mamão verde com rapadura)? 
          Em Minas não vamos nos esquecer de um frango caipira com ora pro nobis ou no Paraná, o imperdível barreado. 

          Mas em São Paulo, torna-se obrigatório pedirmos “dois pastel e um chops”!


Peixe grelhado das águas do Rio Cristalino.  Alta Floresta, MT. 
Foto T.Abritta, 2005.