Guimarães Rosa
nasceu em 1908 em
Cordisburgo, situada entre Sete Lagoas e
Curvelo, no sertão de Minas Gerais. Foi médico,
diplomata e percorreu o mundo, sempre retornando
para as fazendas
e campos mineiros,
por ser um apaixonado pela
cultura sertaneja,
seus falares e valores. Nos últimos vinte anos
de sua existência – faleceu aos 59 anos – despontou como
um grande
escritor, publicando livros traduzidos em
diversas línguas. Esta universalidade
foi atingida ao penetrar intimamente na vida do sertão,
escrevendo sobre o homem
universal que
existe em todos
nós.
Infelizmente as culturas locais
e os grandes valores
da humanidade vão
desaparecendo com a globalização
imposta pelo
besteirol televisivo, que tende a criar uma cultura de mediocridade geral. Mas, assim como Rui
Barbosa dizia que a Bahia não era um estado e sim um país, diante da
grandiosidade de sua
cultura que
sobrevive até hoje, em Minas, o sertão
de Guimarães Rosa, o Grande Sertão: Veredas,
continua eterno, graças
a uma ideológica resistência cultural dos mineiros, com a
valorização de todos os seus aspectos: artes,
do patrimônio histórico, ciência, costumes, culinária
e em particular
seu linguajar.
O sucesso dessa preservação depende mais
de ações individuais
e comunitárias do que unicamente do poder público. Depende também de andarmos Pelo Sertão e de conhecermos o Chapadão do Bugre, a Vila dos Confins e A Palavra Minas, que só os
mineiros sabem e não dizem nem a si mesmos.
Em
1996 viajei pela região
do ciclo do ouro
de Minas
Gerais, seguindo os passos
dos cronistas viajantes do século dezenove como
Saint-Hilaire. Cada
povoado mostrava uma surpresa,
emoldurada pelos seus
nomes maravilhosos: em
Brumal, após percorrer os
campos desertos,
praticamente encontramos toda a população reunida para a missa dominical;
em Nossa
Senhora do Perpétuo
Socorro, uma pequena
capela oitocentista restaurada pela própria comunidade; em Santo Antônio de Itatiaia, o brilho
da pedra sabão
na fachada da igrejinha; mais adiante o gótico do Caraça
e as ruínas da casa
do Barão de Catas
Altas que
continua de pé. Depois
rumei para o pequeno
distrito de Cocais, onde
Álvaro da Silveira em suas Memórias Chorographicas, escritas
em 1922, descreve um
cenário
encantador: na vertente leste
do caminho de Cocáes para
Caeté, em
um dos penhascos
dentre os muitos
de quartzito que ahi se encontram,
deixaram os índios os desenhos da “Pedra
Pintada”.
Ao chegarmos à Vila de Cocais, uma grata notícia: os desenhos citados ainda existiam e ficavam no sítio
da Pedra Pintada
(ver figura),
para onde
rumamos. Lá
chegando, fomos recebidos por Dona Maria Andrelina dos Reis
com muita simpatia, falando como se
declamasse poesias, o que muito nos impressionou, pois era o falar do Grande Sertão
dos Gerais que
estava vivo, quarenta anos após Guimarães Rosa registrar esta linguagem em sua grande obra. E lá foi Dona
Andrelina nos “corrigindo” até a Pedra Pintada, falando entusiasticamente sobre as pinturas
rupestres e sobre
a região, mostrando uma casinha perdida lá em baixo do vale onde vivia um
“confinante”, um de seus
vizinhos mais
próximos.
Figura
- Detalhe das pinturas da Pedra Pintada.
O sítio
arqueológico da Pedra Pintada é constituído de mais
de cem pinturas,
em três
grandes painéis datados
de 6.000 anos a.C. Mesmo
dando um desconto
na “modéstia” mineira, alguns dizem que
estas pinturas são
comparáveis às inscrições rupestres encontradas nas grutas
de Altamira na Espanha e Lascaux na França.
Esse patrimônio
cultural é conservado com muito zelo pela família do
proprietário da área.
Graças
a esses bons
brasileiros, a nossa
história tem sido preservada. E que continuem iluminados pelas luzes
do imutável céu
dos Gerais, descrito com precisão astronômica por
Riobaldo: Aquelas estrelas
sem cair. As-Três-Marias, o Carretão, o Cruzeiro, o Rabo-de-Tatu,
o Carreiro-de-São-Tiago...
Notas:
Carretão: Constelação da Ursa Maior.
Rabo-de-Tatu:
Constelação do Escorpião.
Carreiro-de-São-Tiago: Via Láctea.
Maio de 2009