Botswana, Foto T.Abritta, 2008

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Os Teus Papéis

Comentário, em forma de acrósticos, gentilmente enviado pelo meu amigo Heitor Churchill, após a leitura do meu livro "Os Meus Papéis":


Caro Teócrito
                  Teus papéis
                  Escritos,
                  Onde encontramos
                  Com muita clareza
                  Recordações vividas,
                  Ilustradas por fotos,
                  Têm a prosa clara, concisa,
                  Onde nos deleitamos.
                  Ao ler página por página,
                  Bem distinguimos o escritor e fotógrafo
                  Recordando suas passagens pela vida,
                  Iluminadas de sabedoria.
                  Teus papéis,
                  Teócrito, possuem estilo moderno:
                  Arte de poesia em prosa!

Heitor Churchill, agosto de 2016.

Ode ao Jardim



Inglês japonês tropical
de Glaziou ou Burle Marx.

Jardim de dona-de-casa.

Tal matinha, plantas espetadas ao léu
titiladas sob o céu

neste encantado quintal
a jardineira em seu avental.

Aqui, marias-sem-vergonha
trepadas em pauzinhos molhados.
Ali, paus-d`água a perfumar.
Lá, damas-da-noite a inebriar
desejos a desejar.

Ah, quem dera este jardim visitar
sentir a maciez das pétalas
as carnes das suculentas.

Sentir a simplicidade
cores sabores
perfume da terra molhada.

Jardim de dona-de-casa.


terça-feira, 15 de novembro de 2016

Negra Gata


no telhado
repousa no beiral

negros cabelos
sedosa veludosa

brilho no olhar
fenda a decifrar


Foto T.Abritta.


quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Velocidade e Lentes



“É tanta rapidez que até deixa um vento para trás.
Na fotografia aparece só o rabo do cavalo.”
Caio, 5 anos, agosto de 2014.

          Esses comentários, usados como epígrafe dessa crônica, ilustram a dificuldade de “captar” movimentos, como fotografar uma corrida de cavalos no Jockey Club do Rio de Janeiro.  Hoje com a velocidade dos filmes da chamada fotografia química ou dos sistemas digitais, até na fotografia amadora pode-se congelar facilmente cenas de movimento.

          No passado, mesmo usando-se filmes de alta sensibilidade, obter fotos como a mostrada na Figura 1, não era trivial.  O fotógrafo tinha que incluir na cena, tanto os jogadores como a bola.  Era como usar uma arma de um tiro só, pois não havia tempo hábil de mover o filme para o próximo quadro.  Na década de 40, na câmara Leica, por exemplo, o transporte do filme era feito por enroscamento e não por alavanca como nos modelos posteriores deste equipamento – M2 e M3.

          Nas câmaras fotográficas atuais, a captura de imagens, como a mostrada na Figura 1, são facilitadas pelos sistemas de disparo automático com a obtenção de vários fotogramas em frações de segundos.


Figura 1 - A Bicicleta de Pelé.  Foto Alberto Ferreira, 1965.

          Outro avanço que contribuiu para estas facilidades foi o aperfeiçoamento no cálculo e fabricação de lentes. 
          As primeiras lentes eram polidas manualmente, o que demandava muito tempo, e as objetivas calculadas com o uso de tabelas de logaritmos.           Para projetar uma objetiva, como a mostrada na figura abaixo, levava-se muitos dias, resultando em uma pilha de quase meio metro de cadernetas com fórmulas, números e desenhos (*).  Somente no início dos anos 60 foram calculados os primeiros sistemas ópticos usando um computador IBM.



Figura 2 – Projeto de uma objetiva de 100 mm 
para a câmara de um Daguerreótipo, 1840.

          É interessante observar também, em face dos progressos relacionados à fotografia, que o primeiro registro escrito da tecnologia óptica vem da Bíblia.  Os primeiros espelhos eram feitos de placas de pedra polida e depois de placas polidas de cobre ou bronze e são descritos na antiguidade bíblica em Êxodo 38:8, onde se relata como Beseleel construiu um dos objetos do altar do santuário em Jerusalém: Fez uma bacia de bronze e a sua base com os espelhos das mulheres que serviam à entrada da Tenda de Reunião.

Nota:
(*) Eu tive a oportunidade de conhecer, na década de 80, uma pequena indústria óptica que funcionava no bairro da Penha, na cidade do Rio de Janeiro.  Fabricavam microscópios, diversos instrumentos científicos e balanças analíticas.  Tudo era projetado e calculado pelo proprietário (manualmente com o uso de tabelas de logarítmicos), que polia lentes, espelhos, bem como construía as partes mecânicas.  Este construtor óptico era tão criativo que nas “miras” das lentes oculares usava fios de teias de aranhas devido à regularidade microscópica nos seus diâmetros. 



Fotopintura



          A introdução de cores em fotografia sempre foi uma aspiração que acompanhou esta técnica.  Em 1869, pouco depois do aparecimento da fotografia, Niépce de Saint-Victor conseguiu produzir daguerreótipos com leve coloração.  Outros, como os franceses Louis Ducos du Haron e Charles Cros chegaram simultaneamente a resultados semelhantes na fotografia colorida.  Em 1907, surgiu o primeiro processo industrial na produção de fotografias em cores, o Autochrome Lumière (V.Fig.1).
          Em 1935 surge o Kodachrome e nos anos cinquenta a fotografia colorida se populariza com o Ektacolor.
          Entretanto, processos de fotopintura sempre acompanharam a técnica fotográfica com aplicação de tintas, geralmente guache em papel ou óleo para telas, que colorizavam uma base fotográfica em baixo contraste.
          Nas Figuras 2 e 3 apresentamos dois exemplos de fotopinturas.  Na primeira temos uma fotografia de baixa qualidade com a pintura dominando a imagem.  Na outra vemos um extremo, onde a fotografia é de alta qualidade, delicadamente colorizada em um trabalho artístico mais refinado. 


Figura 1 – Autochromes Lumière.


Figura 2 – Menina, 1926.  Acervo Teócrito Abritta.


Figura 3 – Menino, final do século dezenove.  Acervo Teócrito Abritta.






terça-feira, 25 de outubro de 2016

Inspiração Fotográfica


          Nesta crônica continuamos com nossas sinhazinhas de Recriação Fotográfica, destacando suas poses e os cenários como mostramos na Figura1 (a) e (b).
          Nosso fotógrafo explora cenas onde as modelos, com seus longos cabelos e vestidos, tal ninfas dos bosques, aparecem dentro de rios e diante de cachoeiras.  Com os longos tempos de exposição as águas ficam sedosas, dando uma moldura etérea para nossas super models
          Estes cenários não eram comuns para as fotos da época, ainda mais que as águas sugeriam a nudez de um banho na natureza.
          Qual teria sido a fonte de inspiração de nosso fotógrafo? 
          A fotografia nasceu, assim como as outras artes, sempre procurando inspiração em obras precedentes.  Inicialmente as imagens de modelos copiavam poses em obras clássicas, e fotógrafos de estúdios contratavam as mesmas modelos que posavam para pintores e escultores, reproduzindo cenas e gestos usados nestas artes.

          Nas Figuras 2 e 3 reproduzimos duas pinturas de Renoir, deixando para o leitor as comparações com nossas sinhazinhas.  Note a grande semelhança da pintura Jovem Banhista com a imagem da primeira de nossas modelos, e da Banhista Sentada com a segunda.

Figura 1. (a) Sinhazinha sentada no rio. (b) Sinhazinha e a cachoeira

          Coincidência ou não, nosso fotógrafo anônimo era um inovador, sempre carregando seus pesados equipamentos pelo campo, centrando a temática na beleza das jovens em meio à natureza, merecendo, portanto, tal comparação.


Figura 2. Jovem Banhista. (a) Pintura original.
 (b) Redução para escala de cinzas.

  
Figura 3. Banhista Sentada. (a) Pintura original. 
(b) Redução para escala de cinzas com espelhamento da imagem.



segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Recriação Fotográfica


          Foi fascinante percorrer os salões daquela velha fazenda de café (Fazenda Boa Esperança, Belmiro Braga, MG).  O piso rangia com o andar, cada passo anunciado pelo ranger de madeiras roídas nas rodas do tempo.  Mais emocionante ainda, foi abrir velhos armários, tocar em documentos e objetos há tanto adormecidos.  A descoberta de imagens fotográficas, aprisionadas em mais de uma centena de negativos de vidro, foi como ressuscitar o passado, rostos, crianças, casamentos e toda a vida daquela família. 
          Emocionante volta no tempo.  Como seriam as cópias positivas daquelas imagens em negativo, onde o preto virava branco?

          Separei duas cópias digitalizadas, onde aparentemente duas das meninas apareciam separadas por aproximadamente uma década – final do século dezenove e início do século vinte (V. Figuras 1 e 2).


Figura 1 (negativo digitalizado)


Figura 2 (negativo digitalizado).

          A primeira imagem apresenta uma qualidade técnica mais pobre, e a segunda mostra a evolução do fotógrafo, com o crescimento das meninas acompanhando a qualidade das imagens, agora bem focalizadas e nítidas.
          Bastaria uma pequena operação digital, com a inversão da escala de cinzas, para saltar aos olhos as imagens reveladas. 
          Um olhar mais atento chama a atenção para o primeiro negativo, onde sua baixa qualidade era compensada com uma composição mais artística no posicionamento e gestos das pequenas modelos.  Não teria o fotógrafo dado, durante a revelação, uma tonalidade mais marcante, um sépia, por exemplo, facilmente obtido com os recursos químicos da época?
          Saindo daquele passado de imagens, reclinei-me na cadeira, tirei os olhos da tela do computador e deixei-os vagar por fotografias, mapas, estudos e gravuras na parede.  Com aquele Goeldi bem em frente (V. Figura 3), consegui avançar no tempo.  Uma reimpressão de chapa xilográfica original deste artista feita em 1970 por um de seus alunos.  Reimpressão muito criticada na época (*).  Hoje talvez não comprasse esta gravura.  Mas, por outro lado, as chapas originais foram doadas ao antigo museu do Banerj; com sua extinção, acabaram abandonadas num porão úmido no Museu Antônio Parreiras em Niterói. 
          Assim, quem sabe não teria nas minhas paredes um “artefato arqueológico” atestando o descaso com nossa Cultura?

Figura 3 – Gravura de Goeldi (reimpressão de 1970 usando uma chapa original).  Acervo Teócrito Abritta.

          Girei a cadeira e fiquei lendo lombadas de livros nas estantes ao meu redor.  Separei dois livros: Esse Ofício do Verso, de Jorge Luis Borges e A ReOperação do Texto de Haroldo de Campos. 
Não seria a revelação de um negativo semelhante a uma reimpressão xilográfica?  Ou será que a gravura pertence a um universo artístico, onde autorias devem ser respeitadas e a fotografia apenas uma técnica?  Muitas dúvidas, nenhuma resposta.
Relendo nestas obras alguns trechos sobre a recriação em traduções de poemas, anotei algumas palavras de Haroldo de Campos:

recriação
transcriação
reimaginação
transtextualização
transficcionalização
transluciferação

          Uma sonoridade que apontava caminhos para uma “transposição” e “recriação” na arte fotográfica.  Por que não?
          O resultado desse processo foi a lembrança dos Fotógrafos Pré-Rafaelistas, como Dante Gabriel Rossetti e Julia Margaret Cameron inspirando a primeira imagem, que de fato “pedia” o tom sépia usado por estes artistas (V. Figura 4). 


Figura 4 – Recriação Fotográfica na revelação do
negativo apresentado na Figura 1.

          O segundo negativo, apesar de sua qualidade técnica superior, foi revelado de uma maneira tradicional, sendo mais um documento visual das “sinhazinhas” de nossas antigas fazendas cafeeiras.  


Figura 5 – Revelação digital do negativo apresentado na Figura 2.

Nota:
(*) “Uma ocasião, Goeldi me pediu uma gravura que ele havia feito, pois queria tirar uma cópia e não estava conseguindo, depois de várias tentativas.  A gravura – O Tubarão – ele mesmo confessou que não conseguiu tirar uma cópia igual à original.  Agora, veja só, se o próprio artista tinha dificuldades para tirar várias cópias devido à maneira como trabalhava, tão especial, tão dele próprio, como é que podem ter validade cópias tiradas por aí depois da morte do autor?”
          Fragmento da entrevista com Marcelo Grassmann, concedida em 27 de julho de 1981, para os organizadores da exposição Oswaldo Goeldi no Solar Grandjean de Montigny – PUC/RJ.

Artigo publicado no livro digital: "Fotografia & Imagem: uma jornada poética" , de minha autoria.