Botswana, Foto T.Abritta, 2008

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Errâncias

          Tal pássaro peregrino pousei na claraboia.  Breve parada no voo sem fim desta rota infinita.

          Com a luz do dia admirei.  No brilho das estrelas penetrei a cor capitosa de pele sinuosa: cabelos escorrendo em curvas de olhar.  Boca molhada insinuando um desejar, um moldar de seios aconchegantes no imaginário abraçar. 

          Frio insensível espírito errante.  Sete continentes a percorrer.  Sete véus a desvendar.  Carnes vibrantes a revelar...

          A hora é de partir.  Rumo errático na chegada sem fim.
          Apenas tênue brilho estelar. 
          Apenas uma claraboia a iluminar.


          Frio insensível espírito errante. 

Texto do livro "Os Meus Papéis".


Voo.  Galápagos, Equador.  Foto T.Abritta, 2000.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Um Refugiado Ambiental

Hoje, 15 de outubro, dia do professor, recordamos o Educador  Paulo Freire que caiu no esquecimento juntamente com seu "Plano de Alfabetização de Adultos".  Primeiro. pela Ditadura, agora enterrado pela "Nova Direita" brasileira que cultua a ignorância como valor supremo para manterem-se no Poder.  Abaixo  uma crônica publicada em 2007, no Montbläat, e no meu livro "Memória, História e Imaginação", onde falo um pouco deste plano de alfabetização e  do desrespeito ambiental, fruto da ignorância associada à corrupção.

          O Noctilio leporinus é um morcego de pelo amarelo e patas longas, cuja espécie é considerada extinta na Amazônia, seu habitat natural, onde devido a sua peculiaridade de alimentar-se de pequenos peixes era conhecido popularmente por morcego-pescador.  Este poderia ser um registro definitivo de mais uma espécie animal desaparecida, mas felizmente este escorraçado brasileiro foi redescoberto na costa norte do Peru do outro lado da Cordilheira dos Andes.  Podemos dizer que tal morcego-pescador é o primeiro refugiado ambiental que teve que voar sobre montanhas geladas, enfrentando ventos glaciais, o ar rarefeito e toda sorte de dificuldades alimentares para tentar a vida no desértico litoral peruanoInfelizmente, para sobreviver, este pequeno animal teve que se portar tal qual os exilados econômicos mexicanos que atravessam o Rio Bravo, pulam muros de concreto e cercas de arame farpado – passando através das balas dos membros dos Clubes do Rifle que se divertem “abatendo” latinos – para tentar a vida além da desértica fronteira americana.
          A odisséia deste morcego é um alerta de que muito de nossa rica biodiversidade pode desaparecer sem deixar nenhum registro, que, com os avanços da ciência genética, com a informatização e a facilidade da pesquisa científica, freqüentemente são registradas novas espécies de animais e vegetaisRecentemente dois novos velhos brasileiros deram o ar da sua graça: no Parque Nacional Grande Sertão Veredas, entre Minas e Bahia, foi descoberto o lagarto Stenocercus quinarius e no Parque Nacional da Serra das Confusões, no Piauí, o lagarto Stenocercus squarrosus.  Podemos falar também na infinidade de pássaros que ainda são redescobertos pela ciência, como a Aratinga pintoi, em Monte Alegre no Pará, conhecido localmente como cacaué, e mesmo perto de uma represa da Grande São Paulo, foi descoberto um novo pássaro batizado de bicudinho-do-brejo-paulista.
          Mas esta história toda não sensibiliza o Presidente Lula, que praticamente entrou no governo sob a égide de um crime ambiental.  Ainda em abril de 2003, em visita a Buíque, no agreste pernambucano, onde Lula foi lançar o seguro-safra, ele e toda a sua comitiva participaram do massacre de uma cobra-coral morta a pauladas e pisoteada.  Especialistas em Direito alertaram que os responsáveis pela morte do animal eram passíveis de autuação no artigo 29 da Lei de Crimes Ambientais, que a cobra-coral é um animal da fauna brasileira.  Foram criticados e um conhecido jornalista escreveu “Tudo o que Lula precisa na vida é de um matador de cobra-coral ao seu lado”.  Criou-se o monstro que agora declara “que alguns se preocupam com cinco ou seis espécies de peixepara mostrar o seu desagrado com os relatórios de impacto ambiental das hidrelétricas do Rio Madeira.  O nosso presidente prefere esconder as suas incompetências governamentais empurrando para cima da sociedade brasileira hidrelétricas que, após dez anos de funcionamento, resultarão em um imenso areal poluído de mercúrio, não tendo mais capacidade de geração de energia, com o agravante de destruir a fauna do Rio Madeira deixando milhares de ribeirinhos sem meios de subsistência, com o desaparecimento dos Dourados, Jatuaranas, Tambaquis, Pacus e outras 463 espécies de peixe, muitos existentes neste rio
          A fúria de Lula contra os bagres tem um sério agravante, configura-se como um desrespeito à nossa Constituição Federal que tem um capítulo inteiro dedicado às questões ambientais, além de vários parágrafos relacionados ao tema distribuídos em outros capítulos.  Esta lei maior considera um dever do poder público, não a preservação do meio ambiente e da vida, como a promoção da educação ambiental. 
          Se não fosse a nossa tradição de impunidade protegida pelo foro privilegiado, onde a jurisprudência reinante é “hoje eu absolvo para ser perdoado no futuro”, Lula deveria no mínimo ser obrigado a voltar para a escola onde poderia aprender um pouco sobre equilíbrio ecológico e todos aqueles temas que felizmente entusiasmam as nossas crianças que têm a sorte de freqüentar uma sala de aula.
          Eu não matricularia o nosso presidente em uma escola formal, onde ele poderia ser promovido automaticamente e diplomado tão ignorante como entrou.  Aproveitaria para homenagear o educador Paulo Freire, falecido há dez anos, levando Lula a participar do método de Educação de adultos desenvolvido por este grande brasileiro banido pelos golpistas de 1964 e até hoje esquecido pelas elites do passado, do presente e do PT que preferem um povo ignorante, manipulável. 
          O método Paulo Freire não ensina apenas a escrever palavras, ele leva o homem a pensar o mundo, a sociedade e todos os processos que o envolvem, conscientizando-o para uma vida digna e plena.  O diferencial deste método de alfabetização de adultos é que ele respeita a cultura dos educandos, sendo baseado em seu universo vocabular de onde são selecionadas as palavras de maior significado cultural e emocional.  Deste subconjunto de palavras, são escolhidas aquelas interessantes do ponto de vista fonético para o processo de alfabetização.
          No caso de Lula não teríamos grande dificuldade em selecionar o seu universo vocabular, que, com uma simples consulta aos seus últimos discursos, aparecem com freqüência: churrasco, picanha, futebol, sexo, hidrelétrica, bagre, elite, companheiro, mensalão, e vamos por afora.
          Nas primeiras aulas de Lula poderíamos enfocar alguns temas comuns a uma pessoa com mais de sessenta anos, como medicamentos, pressão alta etc.  Assim, para mostrar a relação entre alguns insignificantes animais (obviamente do ponto de vista do Presidente) e o nosso cotidiano, vamos falar da jararaca e de um dos medicamentos anti-hipertensivos mais usados no mundo que é o Captopril.  Este medicamento foi sintetizado tendo como inspiração substâncias encontradas, em 1965, no veneno da jararaca pelo farmacologista Sérgio Henrique Ferreira, da USP em Ribeirão PretoOutro fato interessante vem da observação de uma gelatina viscosa e transparente que protege a Phyllomedusa hipocondrialis da desidratação e também de seus predadores por conter uma mistura de proteínas tóxicas.  Este nome pomposo é o apelido científico para uma pequena perereca, que vive sob o sol intenso da caatinga do Rio Grande do NorteAnálise recente desta secreção mostrou que ela é rica em compostos capazes de eliminar bactérias e reduzir a pressão arterial.
          Para uma pessoa não acostumada a ler e a meditar, que passou a vida inteira gritando palavras de ordem ou repetindo frases de efeito, creio que por hoje devemos encerrar esta aula, propiciando um pouco de material para as piadinhas presidenciais, falando dos estudos científicos que têm sido feitos no veneno da aranha Phoneutria nigriventer, conhecida popularmente como armadeira.  Cientistas observaram que homens picados pela aranha apresentavam diferentes sintomas, incluindo o priapismo (ereção do pênis dolorosa, mas persistente). 
          Para terminar, enquanto Lula se diverte com o “Rock das Aranhas”, vamos nos despedir com os últimos versos de Paulo Freire, em sua poesia A Escola.

...numa escola assim vai ser fácil
estudar, trabalhar, crescer,
fazer amigos, educar-se,
ser feliz.




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Referências
- Pesquisa FAPESP - 132, fevereiro de 2007; 133, março de 2007 e
  134, abril de 2007
- Constituição da República Federativa do Brasil, artigo 225.
- Educação como prática da Liberdade, Paulo Freire.

- Pedagogia do Oprimido, Paulo Freire.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

ALMAFERIDA - Lançamento de Livro

Wanda Maria Alckmin tem o prazer de convidar para o lançamento de seu livro de poesias Almaferida, com prefácio de Teócrito Abritta (ver abaixo).


O lançamento será no dia 01 de outubro, na Biblioteca Pública Estadual, Vitória, ES às 19.00 horas.

          A arrecadação com a venda dos livros será doada ao menino Misael Caldogno, 3 anos.  Ele é de Cachoeiro de Itapemirim e sofre de uma síndrome rara, Síndrome de Willi.  È de família simples, e não tem recursos para o tratamento.


Wanda Alckmin.  Foto T.Abritta.

Almaferida (Prefácio)

Isto mesmo!  Há / uma / ferida... O significante impondo-se ao significado das palavras.  Mensagem poética de constrangimento, dor ou indignação.

Wanda Maria Alckmin trilha uma bela carreira artístico-literária, com grande produção poética, publicações de livros em literatura infanto-juvenil; passagens pela prosa e jornalismo, bem como criação artística, sempre com engajamento social, seja em projetos comunitários, eventos ou palestras. 
A autora é membro da Academia Espírito-Santense de Letras, da Academia Feminina Espírito-Santense de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo e da Associação das Jornalistas e Escritoras do Brasil.

          Com este livro, Almaferida, Wanda, leva-nos com seus poemas a uma maravilhosa jornada pelos grandes temas da vida, através reflexões, verdadeiras ardências de uma Almaferida.  Ardências da memória, da pele, das lembranças afetivas, da família, a mineirice, enfim, a vida.  Na pele ferida, o estranhamento, a denúncia deste mundo injusto.  Vontade de mudar.  Neste labor intercala versos prosaicos com os da aura poética: poemas plenos de não-ditos.
          O livro começa e termina com homenagens, tal uma dedicatória poética: Minha mãe / me deu / a Luz / com ela, / eu ilumino / a minha vida – Meu pai / me ensinou / a ser poeta / Hoje escrevo / sob o seu olhar.
          O Ubi Sunt? sempre presente, ora nas memórias familiares (Nas cadeiras da minha varanda / já tomamos café da manhã / com as crianças...); nas lembranças de brinquedos infantis (A boneca / chamei-a de Kátia... / o boneco / dei-lhe o nome de Fred... ) e objetos simbolizando a simplicidade (Eu tinha uma sombrinha...).
          A defesa das tradições e a “mineirice” presentes em vários poemas (Sou mineira, / Amiga e hospitaleira...), (Queria retornar / a história dos estandartes...).
          Praticamente não existe tema que não passe pelas reflexões de Wanda: a descoberta da Sexualidade e da Vida (Senti vergonha / me tapei / me encolhi / Senti coragem / me desnudei / vivi), (Hoje, / beijo-lhe / a face, / os olhos / e a boca... ); o constante desafio do viver (Vou renascer / me restaurar / Resolvi, / valer mais para mim); a Maternidade (Sou uma mulher / feliz / conduzi três luzes / dentro do meu corpo...); a marcha do tempo... (Parem / atrasem os relógios / ponham mais minutos neles / A vida está passando / pelas horas correndo).
          Da vida da autora, de seu envolvimento ainda criança com a Cultura, História e Natureza, inspiração para inúmeros poemas (Tenho sonhos simples: / me casar, / entrar no mar / e morar com os livros), (Eu vi / um ipê florido / eu vi...), (Na lagoa o sapo coaxa / na parede a lagartixa espicha...) e a forte presença de Drummond em constante diálogo (Drummond já disse / que nasceu em Itabira... / Será que eu, por nascer em Belo Horizonte...), (Queria ter conhecido Drummond / ter tomado um café / em sua companhia...).
          Wanda Alckmin mostra também que a Arte Literária e o Fazer Poético não são incompatíveis com a crítica social e política.  Nos seus poemas encontramos sua insatisfação, conforme comunicação pessoal: “Escrevo com a alma de poeta e com a dor da maioria dos brasileiros... Com alma de poeta vivo nesse emaranhado de arranha-céus que não fazem o céu aqui na terra.”
          Assim, críticas à frieza do mundo cibernético (Eu clico / eu curto / eles me curtem...), à educação, saúde e segurança (Pensei que governantes / governassem a nação... / que escolas educassem as crianças...); à violência contra as mulheres (Me disseram / que foi de tiro / que ela morreu...) e a crítica social e política (Visto-me de terno / ponho gravata / pareço-me um “doutor”...), bem como críticas usando técnicas de desconstrução (Tinha uma rosa / dentro da caixa... / Dentro / Tinha um cheque / “gordo” / para você).
          Nestas breves palavras tento expressar minhas sensações com estes poemas, convidando os leitores para esta jornada de descobertas, prazeres e esperanças:
“Ipês / colorem / de amarelo e cor de rosa / a água da Lagoa, e o / céu da Pampulha / Van Gogh e Monet / pintam juntos”.

sábado, 6 de setembro de 2014

Paleta de Cores da Natureza

No início de agosto podemos observar o brilho bronze-dourado do Pau-mulato – espécie originária da Amazônia – que acontece apenas uma vez ao ano.  A beleza é breve e em poucos dias o caule dessas árvores começa a descascar, trocando sua camada superficial.  Na sequencia de fotos abaixo, já no início de setembro, podemos acompanhar este processo, onde o bronze-dourado é trocado por um verde intenso que mais tarde irá clareando até chegar a um marrom claro.

          Fotos T.Abritta, 5 de setembro de 2014.  Aléa dos Pau-mulatos, Jardim Botânico, Rio de Janeiro-RJ.










domingo, 31 de agosto de 2014

Cores da Natureza

          A Natureza sempre se renova, num renascer constante, nos surpreendendo com a exuberância de suas cores.  Neste início de agosto podemos observar o brilho bronze-dourado do Pau-mulato – espécie originária da Amazônia – que acontece apenas uma vez ao ano.  A beleza é breve e em poucos dias o caule dessas árvores começa a descascar, trocando sua camada superficial.  Na foto abaixo, nas áreas esverdeadas, já podemos ver o início deste processo.



Pau-mulato – Foto T.Abritta, Instituto Moreira Salles,
Rio de Janeiro-RJ, 12 de agosto de 2014.

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Pense Espacialmente

          Qual é a menor distância entre dois vértices opostos de um cubo – vértices A e C, mostrados na figura abaixo –, passando por sua superfície, ou seja, o volume do cubo não pode ser penetrado?


          Mesmo que voar seja com os pássaros, se você escolheu o percurso ABC (em preto) e não AC (em vermelho) – ver figura abaixo –, está na hora de rever seus conceitos de Geometria.