Botswana, Foto T.Abritta, 2008

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Superfície de Möbius

          Imagine uma superfície, que represente um caminho infinito, sem começo nem fim, tendo apenas um lado, apenas uma borda, mas que pode ser percorrida totalmente. 

          Não consegue imaginar?  Veja abaixo:


Fita sem Fim.  Escultura de Max Bill (1908-1994).

          Esta é a representação escultural da Superfície de Möbius, espaço topológico estudado pelo matemático August Ferdinand Möbius em 1858.

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Noturno para Paris

          Hoje o dia foi para despedidas.  No almoço um tinto do Monte Nebo para acompanhar a costela de carneiro.  No jantar, o vinho branco valorizava o peixe do Mar Vermelho, chegado há pouco do porto de Aqaba.
          Se Moisés bebeu deste vinho, os conquistadores de Roma estocavam-no em tonéis guardados em grutas escavadas nas rochas, esta seria a nossa bebida eleita.  O vinho do Monte Nebo.
          O Mar Morto, o Rio Jordão e Betânia já ficavam para trás, nas profundezas daquela gigantesca fossa geológica.
          Subíamos as montanhas e já cruzávamos as escuras e desertas ruas de Mádaba.  Em menos de uma hora chegaríamos ao aeroporto de Amam para o voo desta madrugada.
          No caminho, lembranças dos mapas medievais em mosaicos que, na antiga Mádaba, orientavam os viajantes pela Terra Santa.  Lembrança também das multidões que, em cada parada, num entra e sai dos ônibus, viajava pela estrada do deserto em direção à Arábia Saudita rumo a Meca.
          Crianças, jovens, velhos, homens e mulheres, numa alegria que lembrava nossas romarias religiosas para Aparecida ou Juazeiro de Padre Cícero.
          A maioria dos peregrinos vinha da própria Jordânia ou do Iraque.  Da Síria e outros países, a guerra dificultava, mas mesmo assim chegavam por rotas alternativas passando pelo Líbano e entrando pela Palestina.




Carro de combate.  Amam, Jordânia.  Foto T.Abritta, 2014.

          Mas a imagem que vimos quando chegamos a Amam não me saía da cabeça.  Um carro de combate estava camuflado nos jardins do hotel, mostrando que a guerra nos circundava naquela ilha de paz.

          Os acontecimentos no Natal de 1991 em Belém acabaram invadindo-me os pensamentos:

          A tropa de ocupação proibiu a saída da procissão.  Um grupo de fanáticos religiosos se reuniu no Túmulo de Raquel para hostilizar os cristãos – terrível ironia em nome de um símbolo religioso do amor maternal.
          Carros de combate, tropas de soldados armados por todos os lados.  Os Palestinos, acuados, queriam apenas entrar na Igreja da Natividade nesta noite de Natal, para rezar e libertar a procissão que sairia pelas ruas de Belém, numa tradição já milenar.
          Grades e barreiras bloqueavam a passagem do povo.
          A multidão batia com os sapatos nas grades.  Até a Cristina, revoltada, correu, tirou um dos sapatos, aderindo ao protesto, sempre gritando o refrão: ‘This is a church, not a prison!’
          Mas milagres acontecem.  As portas foram abertas, e todos entraram cantando junto com a procissão, que circulou, não sei como, no pequeno pátio interno da igreja.
          Os Palestinos, agora felizes, se reuniram depois na praça da Natividade, cantaram músicas populares e, em menos de uma hora, se foram.
          As luzes da praça apagadas, tudo deserto.
          A escuridão do medo.

          Mas não foi o Natal mais triste da minha vida graças ao jovem que na manhã seguinte nos esperava na porta do hotel:

          “Sou apenas um ‘peluqueiro’(*).  Gostaria de não ter sido um dos soldados que estavam na porta da igreja.  Entendo um pouco de Português, meus pais são argentinos, mas nasci aqui.  Estou muito envergonhado com esta ocupação.  
          Peço desculpas.  
          Quem sabe um dia isto tudo não acaba bem?"

Chegamos ao aeroporto: voo noturno para Paris.

Notas:
(*) Cabeleireiro.
   - Esta é a terceira crônica sobre a Jordânia, escrita no final de maio de 2014, poucos dias antes de explodir a extrema violência no Iraque e pouco depois na Palestina.

Ler também:

sábado, 21 de junho de 2014

Ode à Cachaça

Em Minas tem fuxico pra abrigar
casa geminada para o vento frio cortar.

Tem também cachaça a esquentar
sempre a variar, encontradas ao milhar.

Quando a cachaça é Lua, pode ser Nova
Cheia ou Meia Lua.

Quando é Serra, é Morena, Rochinha, Monte Alto.
Montanhosa, mas sempre Cristalina.

Seu calor é o esplendor da alma feminina
Minha Deusa, Magnífica, Boazinha.

Pura ternura, Beija Flor, Furadinha...Chora Rita.
No reflexo vítreo, desnuda-se Lourinha...Clarinha.

Envelhecida, é valorosa, Morada Velha,
Vila Velha, Vereda Tropical.

Muita falação, pouca ação.
Paremo a prosa, bebemo a danada da cachaça!



Cachaçaria, Visconde de Mauá.  Foto T. Abritta, 2010.

A Ponte de Arame

Não passa pastor
nem alma penada.

Não passa ministro
prefeito, nem vereador.

Passa apenas o Povo sofredor
seu cachorro, sua dor.

Retrato da miséria social
desvios de verba, desgoverno.

Poetas,
Românticos ou Modernistas
Barrocos ou Simbolistas
venham cantar esta singela obra

maravilha da arquitetura mundial.
(Solução do Povo nacional).



A Ponte de Arame.  Foto T.Abritta.  Sana, Macaé – RJ, 2010.

sábado, 7 de junho de 2014

Um Ali


            Hoje só quero descansar, meditar e admirar.  Foi uma longa jornada.  Jordânia, verdadeira ilha de progresso, solidariedade humana e paz encravada neste triste oriente médio.
          Da varanda debruçada na árida encosta, cem metros abaixo, o Mar Morto brilha como nunca.  Ao longe, as azuladas montanhas da Palestina.  A sofrida Palestina.  Mais de oitocentos mil desenraizados, injustiçados, escorraçados vivendo tão perto, tão longe de sua pátria.

          “Agradeço de coração seus conhecimentos históricos.  Veio do outro lado do Mundo para nos visitar”. – palavras do jovem que me recepcionou na chegada ao hotel.

          Toda esta região, do Mar Morto até as margens do Rio Jordão, estava pontilhada de minas explosivas.  Hoje, na região de Betânia, verdadeiro exemplo de respeito religioso: mais de cinquenta templos católicos, protestantes; ortodoxos gregos, armênios, russos e mesquitas, todos convivendo na histórica área, cenário de grandes acontecimentos.  Por aqui, nas encostas do Mar Morto, dezenas e dezenas de hotéis integrados na natureza.

          Agora só quero meditar e admirar.  O sol vai deitando nas montanhas, o céu amarelando, a luz brilhando no espelho das águas salgadas.

          No fundo uma volta aos tempos de juventude.  Uma continuação de minhas velhas peregrinações arqueológicas: Egito, Grécia, Roma, México, Peru, Ilha da Páscoa... Inscrições rupestres em desertos, savanas, florestas e praias.
Petra é singular.  A bela fachada do templo funerário, com suas linhas, cantos, planos, tudo preservado da ação de ventos, tempestades de areia e toda abrasão que vai polindo e transformando essas arquiteturas.
Atravessando a longa fenda, mais de um quilômetro de percurso, o céu escondido pelas alturas das rochas, a surpresa: primeira visão da cidade perdida de Petra.  Quase toda destruída por terremotos, mas seus grandes traços poupados.
Surge aos nossos olhos a cidade dos Nabateus (V. Figura 1).



Figura 1 – Petra.  Foto T.Abritta, 2014.

          O sol morrendo nas montanhas, seus últimos raios atravessando as muralhas de Jerusalém – torres e construções surgindo tais pequenos desenhos entalhados no topo das alturas emolduradas pelo amarelo do céu (V. Figura 2).

          Sem os recursos do petróleo, sobrevivem graças a aridez de seus desertos: fosfato, potássio, cimento.  Água bombeada de reservatórios subterrâneos, cata-ventos e células solares produzindo energia.  Verdadeiro formigueiro de caminhões levando mercadorias do porto de Aqaba para o Iraque e outros países.  A lembrança de Nasser nas torres e linhas de transmissão que, da longínqua Assuã, levam energia elétrica para a Síria, Turquia, chegando até a Grécia.


Figura 2 – Montanhas da Palestina.  Foto T.Abritta, 2014.

          “Não edificareis casa, não fareis sementeiras, não plantareis nem possuireis vinha alguma, mas habitareis em tendas todos os vossos dias, para que vivais muitos dias sobre a terra em que viveis peregrinando”.  Assim observou o historiador grego Diodorus Siculus (90 AC – 30 AC) sobre o estilo Beduíno de viver. 
          Hoje os tempos são outros.  Os Beduínos não abrem mão de sua vida nômade (V. Figura 3), mas fazem questão de seus telefones celulares – carregando suas baterias com energia obtida de células solares – e de seus modernos camelos, suas picapes 4x4 com cabine dupla.  Mas continuam criando suas cabras, banqueteando-se com iguarias como galinha, carneiro e legumes com arroz cozidos durante horas em braseiros enterrados nas areias dos desertos.  A par da assistência médica oferecida pelo governo, ainda vacinam suas crianças com uma pasta de ervas e escorpiões macerados. 

          Por fim, só quero admirar.  O sol vai sumindo, a noite caindo.  Ao longe, as luzes de Jerusalém brilham no alto das Montanhas da Palestina.  Descendo o olhar, as luzes de Jericó, cidade mais antiga do mundo.
          A abóboda celeste brilhando como nunca.  O intenso luar não consegue esconder as luzes de Saturno.  O vermelho intenso de Antares, o olho do Escorpião, parece levar-me a uma antiga caravana navegando pelos desertos, buscando o rumo em sua peregrinação para Meca.

          A propósito, Um Ali é um delicioso doce árabe feito pela Mãe de Ali.  Leva pão, leite, açúcar, amêndoas, cardamomo, canela e outras especiarias, podendo ser servido no café da manhã ou como sobremesa, com sorvete.


Figura 3 – Beduínos do Deserto.  Foto T.Abritta, 2014.






segunda-feira, 26 de maio de 2014

A Fauna Perdida de Wadi Rum


Se você envolver-se com a viagem, você chegará.
Ibn Arabi (1165-1240).

          A picape 4x4 rodava macio no silêncio daquele tapete infinito de areias vermelhas.  Majestosa paisagem.  Aqui e ali, pilares montanhosos erguiam-se a mais de mil metros de altura.
          Serpenteando nos estreitos desfiladeiros, observávamos gigantescas paredes de rochas em camadas coloridas, como páginas de imenso livro geológico narrando capítulos de milhões de anos.
          Na sinfonia de ecos, vibrando nas estreitas fendas, o ruído do olho d’água brotando das pedras.  Ao lado, contrastando com o ocre das areias, pequenas flores amarelas colorindo o deserto.  Dezenas de pássaros em revoada nos saudavam. 
          Olhos fechados, tentávamos ver o inexistente.  Onde estavam os animais que por aqui habitavam? 
          A fauna se foi, caçada, morta, violentada por guerras e conflitos entre os que por aqui passaram.  Mas suas marcas ficaram talhadas na pedra por hábeis mãos humanas.
          Diante de imenso paredão rochoso, a surpresa: magníficos painéis de inscrições rupestres (1).  Verdadeira viagem no tempo.  Um retorno aos tempos bíblicos (2), chegando a mais de mil anos antes de nossa era.  Lá estava a fauna perdida do Deserto de Wadi Rum na Jordânia, perto da fronteira com a Arábia Saudita.  Animais e homens lutando pela vida.
          O primeiro painel, a uma altura de uns quinze metros, é mostrado na Figura 1.  À sua esquerda, podemos observar uma cena de luta entre dois guerreiros, armados com espadas e escudos, e dois leões.  A cena é acompanhada por um cavaleiro, o que pode ser observado melhor no detalhe apresentado na Figura 2.  As feras parecem ameaçar um bando de gazelas que se espalham pela área representada no painel.  No canto inferior à esquerda, ainda podemos “ver” dois pequenos animais, provavelmente raposas do deserto.  À direita, observamos um texto com características da escrita árabe primitiva.
          Os outros dois painéis estão a uma altura de uns cinco metros.  No primeiro destes (V. Figura 3), testemunhamos três cavaleiros caçando um bando de óryxes (espécie de antílope das areias, atualmente existente nos desertos da Namíbia) (3)
          O terceiro painel (V. Figura 4) também representa um bando de óryxes, agora caçados por um jaguar (ver centro) e um caçador armado de arco e flecha (ver pequena figura à direita).  O jaguar é identificado pelas manchas na pelagem e sua boca de fera semelhante a dos leões).
Saímos desta remota era com estampidos de tiros que perfuram as graciosas figuras.  Chegamos à Primeira Guerra Mundial – ano de 1916.  Tropas britânicas, que invadiram a região sob a orientação de T. E. Lawrence, treinam a pontaria antes de combater os exércitos turcos.
Alguns também aproveitam para conspurcar estas maravilhas, talhando na rocha as iniciais “A N”. 
Fim do domínio turco, início do império colonial britânico. 

          Com o sol caindo entre as montanhas, o avermelhado do céu confundindo-se com o colorido das areias, iniciamos o retorno.
          No caminho um tropel de camelos.  Pouco adiante, um viajante perdido, com o jipe atolado nas areias macias, sendo socorrido pela caravana – encontro da tradição com a modernidade.

Notas:
1. Feitas provavelmente pelos primitivos Nabateus, povo árabe que ocupou esta região.
2. No Velho Testamento, tempo dos Patriarcas, segundo milênio antes de Cristo, podemos observar inúmeras menções à fauna existente no Oriente Médio.  Por exemplo: leão e urso em Samuel 17.34-37; leões em Daniel 6.1-23; lobo, leopardo e leão em Isaías 11.6-7; chacais e avestruzes em Jó 30.29 etc. 
É também importante observar que os camelos ainda não eram domesticados nos tempos dos Patriarcas – segundo milênio antes de Cristo.  A menção deste animal nestas épocas é um erro histórico, mostrando que a Bíblia foi escrita anos depois dos fatos narrados.  Os camelos primitivos eram menores, patas mais frágeis, sendo apenas caçados para alimentação.  A domesticação deste animal, com sua seleção e uso nas caravanas, deu-se plenamente no século VII A.C.  Tais conclusões são suportadas por datações de ossos usando técnicas de rádio carbono.
3. Outros animais existentes nestas regiões e que possuem longos chifres curvos para trás, são os íbexes ou cabras monteses.  Mas são muito dependentes de água, vivendo em rochas perto de fontes e não em campo aberto como os óryxes.
- O Governo da Jordânia criou diversas reservas, onde óryxes e outros animais são protegidos, para posteriormente serem reintroduzidos em outros habitats naturais.


Figura 1 – Inscrições Rupestres. Deserto de Wadi Rum, Jordânia.
Foto T.Abritta, 2014.


Figura 2 – Inscrições Rupestres (detalhe da Figura 1),
Deserto de Wadi Rum. Foto T.Abritta, 2014.


Figura 3 – Inscrições Rupestres. Deserto de Wadi Rum, Jordânia.
Foto T.Abritta, 2014.



Figura 4 – Inscrições Rupestres. Deserto de Wadi Rum, Jordânia.
Foto T.Abritta, 2014.







segunda-feira, 31 de março de 2014

Vale de Uspallata


Montanhas de montes que morrem.
Calor absorvem, gelo dissolvem
em negras pedras vulcânicas.
Uarpes Araucanos Incas aqui passaram.
Escravizados, torturados, nas minas
do Vale da Morte enterrados ficaram.


O Aconcágua (6962 m) na imensidão dos Andes.  Longe, muito longe, atrás destes morros, o Vale de Uspallata – morte.  Foto T.Abritta, 2014.