A
década de 70 foi uma época
de grande repressão
e violência política. Alguns
jovens tentavam procurar
caminhos nas filosofias orientais e nos
misteriosos povos do Himalaia. Livros
como Sidarta,
de Hermann Hesse e O Fio
da Navalha, de Somerset Maugham
faziam muito sucesso. O primeiro
descreve, em forma
de romance, a vida
de Sidarta que no fundo
era a vida
do próprio autor,
em sua
busca de credos
mais autênticos
em peregrinação pela
Índia.
O segundo romance
é sobre a odisseia espiritual do jovem Larry buscando um
sentido para
a vida e para
a morte após os horrores da Segunda
Guerra Mundial.
Outros jovens
encontravam uma saída para
buscas existenciais, não no autêntico Budismo
Indiano, mas no Zen Budismo
japonês, que fazia grande sucesso no Ocidente
com o livro
Introdução ao Zen-Budismo,
de D.T.Suzuki, lançado em várias línguas com prefácio de C.G.Jung.
Este livro
era um
prato feito
para aqueles que procuravam fugir da lógica do nosso
cotidiano, através destas ideias: O Zen
nunca explica. Somente nos oferece sugestões. Tentar explicá-lo
é como tentar
prender o vento em uma caixa. No momento
em que
se feche a tampa, perde-se o vento e obtém-se o ar
estagnado.
Assim como
hoje os jovens
compram caríssimos telefones celulares,
naqueles tempos causavam grande sucesso
citações Zen Budistas
como: O caminho do meio está onde não há nem meio nem dois lados. Quando
estais escravizados ao mundo objetivo, tendes um
dos lados, quando
estais com a mente
perturbada, tendes o outro. Quando
nenhum desses lados
existe, não há a parte
do meio, e portanto
aí estará o caminho
do meio. Todos
diziam genial,
genial
e seguiam contentes, embalados pela belíssima música
de Ravi Shankar e o som das cordas de sua
sitar.
Em julho de
2007, movido por uma grande nostalgia,
parti para uma viagem
pelos outrora
chamados “Paraísos Perdidos do
Himalaia”. A “peregrinação”
começou pelo norte da Índia, percorrendo quase
mil quilômetros
por terra através de Darjeeling, dos Reinos
do Sikkim e do Butão e por via aérea ao Nepal e
Tibet. Em
uma série de três
crônicas falaremos sobre estes lugares que me fizeram sentir como os personagens do filme
Bye, Bye, Brasil de Cacá Diegues
(1980), que, com um
pequeno circo, percorriam o Brasil,
procurando um lugar
que não
tivesse televisão que
lhes tirasse a plateia. Resolvem então partir para a mítica Amazônia. Chegando a Marabá,
no Pará, tiveram uma grande decepção,
pois só
encontraram devastação ambiental, estradas lamacentas e um
mar de antenas
de televisão.
Darjeeling, o reino
do chá.
Darjeeling
e o Reino do Sikkim ficam em uma pequena região nos
contrafortes do Himalaia, entre o Nepal
e Butão, fazendo fronteira ao norte com o Tibet, na
parte mais
setentrional do atual
estado indiano
de Bengala Ocidental. O único
aeroporto fica na cidade
de Bagdogra, de onde se pode pegar um pequeno trem a vapor na cidade
próxima de Siliguri e chegar
a Darjeeling ou Kalimpong, desembarcando
em estações
ferroviárias dos tempos dos Rajás, com altitudes
de quase mil e quinhentos metros. Pode-se chegar
também percorrendo os noventa quilômetros de estrada
a partir do aeroporto,
o que leva
um dia
inteiro, já
que a via tem
um asfaltamento precário,
um intenso trânsito de caminhões
em mão
dupla e é margeada de cidades e povoados com
multidões de pessoas, animais e vacas
sagradas entre os veículos
que buzinam freneticamente.
No
final do dia
chegamos à mítica Darjeeling, a antiga capital de verão
de Bengala Ocidental. A cidade
tem a aparência arquitetônica de um bairro popular da Baixada
Fluminense, transplantado e moldado nas alturas das montanhas,
mas com
sua
feiúra atenuada pelo
verde das plantações
de chá.
As construções escalam aleatoriamente
as encostas, em
um equilíbrio
tecnicamente impossível, acompanhadas de
uma profusão de fios e tubulações de gás
que atravessam ruas,
sobem paredes e becos,
dando impressão de que tudo está prestes
a explodir. Mas, passado o impacto com este caos
causado pela bomba
populacional, começamos a gostar e admirar
a diversidade humana
e cultural do povo da região. A par
da população original,
os Lepchas – que falavam Rongaring, uma língua Tibetano-Burmanesa –, temos os Gurkhas, um povo guerreiro, os Sherpas, Bengalenses, Tibetanos,
Nepaleses e muitos outros,
com uma grande
riqueza de línguas,
trajes e costumes. No meio
daquela multidão nos
sentimos muito bem,
pois não existe
nenhuma insegurança, todos
são extremamente
educados e atenciosos, ninguém fala alto ou com irritação. A maioria
das pessoas é muito
pobre, dando a impressão
de que se alimentam apenas
com o mínimo para se manterem vivos,
desmentindo tese de nossos “pensadores” de que
violência e pobreza
são indissolúveis.
Após beber muito
chá, fomos visitar
o Instituto de Montanhismo
do Himalaia e nos impressionarmos com a precariedade
dos equipamentos usados pelos primeiros
conquistadores do Everest, como Tenzing Norgay Sherpa juntamente
com Sir Edmund Hillary. Outro ponto imperdível para um turista
cultural é o Hotel Windamere, que
foi residência de Mr. Laden La (1876-1936),
um grande
militar e político
da região, com
grande trânsito
nas cortes do Tibet, Nepal e Butão e bem articulado com os
chineses e colonialistas ingleses. Posteriormente, sua residência
foi transformada em um
refúgio para
fazendeiros ingleses que vinham visitar suas plantações
de chá e hoje
em dia
é um hotel
que nos
leva ao passado
com seus
aposentos decorados com
antiguidades e uma magnífica
coleção de fotografias
das pessoas e da vida
na região, com mais de um século. A direção do hotel
proibia que fossem fotografadas as fotos antigas.
Afinal de conta não é muito protocolar
que imagens
de realezas fossem digitalizadas e
circulassem por aí. Mas a Rainha do Butão ocupava um
pedaço da parede
do meu apartamento
e foi irresistível cometer
um sequestro digital, apresentado na figura
1.

Figura 1 – Rainha
do Butão em visita
a Darjeeling no início do século passado.
Foto Windamere Hotel.
Foto T.Abritta, 2007.
Sikkim, o reino
virtual
O
Reino do Sikkim foi fundado por budistas de origem
tibetana no séc. XVII, tendo a dinastia
dos Chogyals reinado até 1975, quando
através de um
plebiscito foi anexado à Índia, encerrando o reinado
de Palden Thondup, o último Chogyal. Entretanto
mantém o status de reino virtual,
conservando sua História
e Cultura.
Para entrarmos neste simpático
Reino, temos que
obter uma prévia
autorização e passar por
suas autoridades
de fronteira, que
ficam ao lado de um
aconchegante bar,
onde aguardamos que
nossos passaportes
sejam carimbados (V. figura 2).
Figura 2 – Carimbo
de entrada no Reino
de Sikkim. Foto T.Abritta, 2007.
A
partir da “fronteira”
seguimos por uma estrada
precária, mas
muito movimentada,
que sobe as montanhas
serpenteando ao longo do vale
do Rio Teesta.
Neste caos rodoviário
sentimos pulsar e respiramos a tão
saudada economia indiana,
pelo ruído constante das buzinas,
pela poluição
causada pelos caminhões
Tata,
de fabricação indiana,
e pelo casario
que nos
acompanhava, como se uma cidade infinita
fosse espichada ao longo do nosso caminho,
lançando toda a sorte
de dejetos nos
rios que
deveriam ser cristalinos
como as águas
das montanhas, mas
que se apresentam encardidos pela degradação ambiental.
Esta
explosão demográfica indiana assusta quando
começa a subir
pelos Himalaias, destruindo tudo pela frente, inclusive a vida animal. Nas planícies
indianas, as plantações de arroz invadem a natureza
selvagem e a todo
momento observamos cercas
eletrificadas, que tiram dos elefantes – encarnação
do deus Ganesha – o direito
de ir e vir e de sobreviver, já que não podem comer nem arroz, nem os seus alimentos naturais com a invasão de seu habitat. Os Tigres de Bengala,
que chegavam a quarenta mil no início
do século passado,
hoje são
pouco mais
de três mil. Cada vez que um tigre mata um humano ‒ ato extremo
de sobrevivência ‒ outros são impiedosamente
assassinados, desagradando Shiva, que
responde com mais
sofrimento para os homens.
Gangtok,
a capital deste reino,
no alto das montanhas,
a mais de mil e quinhentos metros de altitude,
tem a aparência de uma favela
urbanizada por uma empreiteira
brasileira, com suas
ruas tortas,
pavimentação precária, esgoto escorrendo pelas calçadas
e tanta gente
que não
dá para imaginar como sobrevivem.
Mas a beleza
de seus templos,
como os monastérios
Enchey, Rumtek e o Instituto Namgyal de
Tibetologia, em muito
contribuiu para o sucesso
de nossa “peregrinação”.
No
Instituto de Tibetologia, que tem uma fantástica
biblioteca de escrituras
budistas medievais,
fomos obrigados a uma meditação em plena escuridão, pois um grupo de mongezinhos endiabrados apagou as luzes do templo
e cerrou as enormes portas,
divertindo-se para valer. Em outros templos
fomos surpreendidos por monges atendendo telefones celulares
durante a récita
de mantras. Mas o mais marcante
foi a visita ao Monastério
Rumtek.
Em 1959, após a invasão chinesa no Tibet, o líder
religioso de uma das mais antigas seitas
do budismo tibetano, Gyalwa Karmapa, foi para o
Sikkim e construiu uma réplica do antigo monastério
tibetano, levando todos os objetos de culto,
livros e um
fabuloso tesouro. Com a morte de Karmapa em
1981 – que era
o 16o desde a fundação da seita – iniciou-se uma disputa entre facções, que
resultou em intervenção judicial e até hoje o monastério
é vigiado por tropas
militares, com
soldados armados de metralhadoras
e que seguem cada
visitante como
se fossem agentes terroristas
plantados pelos chineses que ocupam o Tibet.
Neste clima de violência fotografei um
pequeno monge
que se escondia atrás
de um muro
para fugir das cerimônias religiosas em
curso, com
a participação de mais de cem monges e todos os estudantes
(V. figura 3). O “Pequeno
Buda” parecia ter
chegado à “Iluminação”
transmitindo pensamentos como: Se um homem
pudesse silenciar todos
os desejos e só
fazer o bem... A paz só é possível na quietude sem fim do
Nirvana.

Figura 3 – O “Pequeno
Buda. Foto T.Abritta, 2007.
A
nossa despedida
do Monastério Rumtek foi solene. No portão
de saída a guarda
formada por militares
Sikhs, como se perfilada, nos devolveu os passaportes,
todos com
um sorriso
inimaginável naquelas faces condicionadas para a
guerra. Saudaram-nos com as palavras:
Ronaldo, Ronaldinho. Fomos tratados com honra
protocolar de verdadeiros súditos do Reino Encantado do Futebol,
onde impera somente
alegria entre
os homens.